Crônica da semana por Nilton Morselli

O defunto inaugural

O prefeito de Ribeirãozinho estava às voltas com a comemoração do aniversário de descobrimento do Brasil, marcada para o começo da tarde, na sede da Prefeitura. Manoel Rodrigues Estrela caprichara na redação do discurso e pedira para a mulher passar a ferro o terno azul marinho confeccionado por um conhecido alfaiate de Araraquara para ocasiões solenes. Era começo do outono de 1896, tempo meio carrancudo e já sem aquele calor do verão, boa oportunidade para aparecer com o novo traje social.
– Dia corrido, nem parece quarta-feira! Queria dar um chego na barbearia, mas acho que não vai dar tempo. Quer saber? Vou assim mesmo – pensou em voz alta o alcaide.
O prefeito já ia tomando o rumo da porta quando um ajudante de ordens chega esbaforido.
– Doutor, desculpe por não bater antes de entrar. Mas a notícia é urgente.
– O que foi, homem?
– Acabou de acontecer: seu Bernardino foi encontrado morto agorinha.
– Como assim, morreu? – pediu detalhes o prefeito.
– Morte morrida, pelo jeito. Não tem sinal de bala. Foi na Rua do Sapo, decerto estava indo ao córrego dar de beber ao cavalo. Estava caído lá e o animal pertinho. Venho vindo de lá.
– Coitado! Avise o doutor delegado e cuide de tudo para fazer um velório à altura do nosso querido Bernardino – pediu o chefe do Executivo, já colocando o chapéu na cabeça para ir até o local do infortúnio.
– Acredito que o delegado já esteja a caminho. O senhor sabe que as notícias voam por essas bandas.
Chegando ao local, Manoel constatou o falecimento com os próprios olhos e ordenou que tivessem pressa para retirar o corpo. Com a mão escondendo a boca, comentou com um outro assessor que lhe segurava o casaco.
– Já temos o homem!
– Desculpe, não entendi, doutor.
– Não acabamos de aplainar o terreno para o novo cemitério de Ribeirãozinho? Pois bem, vamos inaugurá-lo amanhã e justamente com um morto, digo, um cidadão ilustre.
– E onde o senhor vai enterrar o corpo do Sebastião?
– De quem?
– Do Sebastião, aquele senhor de cor que morava subindo a rua do mercado! Morreu hoje de madrugada e já está sendo velado.
O prefeito passou as mãos na barba e franziu a testa, demonstrando surpresa.
– Vamos pensar. Basta protelarmos um pouco mais o velório desse infeliz. Tudo é questão de conversar com a família.
– Doutor, a cova já está aberta. O enterro vai ocorrer lá pelo meio da tarde.
– Negativo! Sem o consentimento do prefeito, nada feito! Vá até lá e, respeitosamente, diga que terão de esperar. Diga que, sei lá, o velório vai ter de se prolongar até amanhã porque falta um alvará. Ordem do prefeito.
– Mas, prefeito…
– Não tem mas nem menos. Vá até lá e resolva isso. Amanhã faremos a inauguração solene do novo cemitério.
Natural de Araraquara, Bernardino José de Sampaio morrera aos 65 anos no dia 22 de abril. Foi o principal fundador da cidade, em 1868, doando 15 dos 64 alqueires iniciais para a formação do povoado. Em 1892, quando Ribeirãozinho deixou de ser distrito de Jaboticabal, foi o primeiro presidente da Câmara.
Outras considerações sobre ele: ao mesmo tempo era sobrinho, cunhado e genro dos Domingues da Silva, também fundadores do município. Por quê? Porque Bernardino se casou com a sobrinha, Francisca Olegária da Silva, filha de sua irmã, Ana Caetano de Sampaio, e de José Domingues da Silva.
Portanto, Bernardino era cunhado e genro de José Domingues da Silva, genro de sua própria irmã e passou a ser sobrinho dos outros Domingues da Silva (Andrelino e Sebastião), tios de Francisca. Não é demais afirmar que Bernardino também foi tio dele mesmo. Talvez em razão da consanguinidade, o casal não deixou descendentes.
Em 1870, morando na Fazenda Paraguaçú (nada a ver com o personagem Odorico, que por sinal também esperava um morto ilustre para estrear o cemitério da factícia Sucupira), iniciou a cultura do café, cujos ramos e frutos foram parar na bandeira e no brasão do município. Em 25 de julho de 1892, foi eleito o primeiro juiz de Paz, pouco antes de compor a primeira Câmara Municipal.
– Bernardino é a pessoa certa para inaugurar o cemitério – afirmou o alcaide.
Mas o negro, que morrera de febre amarela, tornara-se um problema para os planos oficiais. O ajudante de ordens, voltando da casa em que o velório já se findava, anunciou:
– Doutor, não será possível estender o velório. O corpo não aguenta até amanhã. No entanto, tenho outra solução, se o senhor me permite. Podemos providenciar o sepultamento no cemitério antigo.
– Mas isso vai adiar o projeto de implantarmos uma praça naquele local, como tenho prometido. Faz tempo que nenhum corpo é enterrado ali. Pelo menos uns dois anos. Porém, creio que não há outro caminho. Me passe o carimbo. Está autorizado!
Aliviado com a solução encontrada, o ajudante de ordens disse que iria imediatamente fazer a proposta à família, quando o chefe esbravejou:
– Eles não têm que concordar. Diz que é ordem do prefeito e pronto!
– Perfeito, seu prefeito. Assim o farei. Uma última pergunta: como fica a solenidade de aniversário dos 396 anos do descobrimento do Brasil?
– Não há mais clima para isso. Declararei luto oficial de três dias.
Todos os moradores da pequena Ribeirãozinho acorreram ao prédio da Câmara, onde foram rendidas as últimas homenagens ao fundador, homem bastante conhecido e respeitado. Familiares e amigos passaram a madrugada no recinto, adornado por coroas de flores vindas principalmente de Jaboticabal e Araraquara, cidades em que Bernardino Sampaio mantinha grandes amigos.
O prefeito Manoel Estrela não arredou do pé do lugar, cumprimentando as pessoas como se fosse da família. E já ia pensando como seria a inauguração do campo santo.
Inaugurar cemitério municipal é fato histórico e político, não é todo dia que acontece. Por isso, nunca ouvira falar que houvesse foguetório, descerramento de placa ou outras pompas corriqueiras nas entregas de qualquer obra pública. E aquele não seria necessariamente um dia de festa, pois era ninguém menos que o cidadão mais importante do lugar quem ia a sete palmos do chão.
Na manhã de 23 de abril, o prefeito decidiu que “mataria dois coelhos com uma cajadada só”: faria um discurso no qual juntaria o obituário do falecido, enaltecendo suas qualidades e venturas, com os benefícios da conquista do novo cemitério, antiga aspiração do povo ribeirãozinhense.
Assim foi feito. A cidade de Ribeirãozinho, que a partir de 1907 passou a se chamar Taquaritinga, ganhava uma necrópole em área afastada do centro e um primeiro, ilustre e eterno morador. Na saída do cemitério, as pessoas ainda elogiaram o novo terno azul marinho do prefeito.
*
Conto baseado em artigo do historiador José Romanelli (1900-1994) em que se especula: é possível que tenham ocultado o sepultamento de um negro vitimado pela febre amarela para que Bernardino fosse o primeirão do cemitério.

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