PARA ENTENDER A CRISE UCRÂNIA X RÚSSIA

Por Luís José Bassoli

HISTÓRIA

Na Idade Média, Rússia, Ucrânia e Bielorrússia (hoje chamada Belarus) formavam o “povo Rus”, o primeiro Estado eslavo da história. A criação da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), em 1922, incluiu Ucrânia e Belarus.

 

A QUESTÃO DA CRIMEIA

Nos anos 1950, o líder soviético Nikita Khrushchev transferiu a região da Crimeia, que pertencia à República Russa, para a Ucrânia.

Em 2014, Vladimir Putin determinou a invasão da Crimeia e retomou a região, como forma de mostrar força à Ucrânia, cujo governo estava descontente com a influência russa e buscava dela se distanciar, aproximando-se do Ocidente.

 

FIM DA GUERRA FRIA

Com o fim da URSS, no início dos anos 1990, acabou também o Pacto de Varsóvia, organização militar formada pelos países comunistas: União Soviética, Polônia, Alemanha Oriental, Tchecoslováquia, Hungria, Romênia, Bulgária e Albânia, análoga à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), formada por: EUA, Reino Unido, França, Itália, Alemanha Ocidental, Espanha, Portugal, Bélgica, Holanda, Dinamarca, Noruega e Turquia.

Quando acabou o Pacto de Varsóvia, o Ocidente teria “prometido” à Rússia que a OTAN não avançaria aos países ex-comunistas, mas, a partir de 1997, vários desses países ingressaram na Organização: Hungria, Polônia, Bulgária, Romênia e Albânia; República Tcheca e Eslováquia; Letônia, Estônia e Lituânia; e os ex-Iusgolávia Croácia, Eslovênia, Montenegro e Macedônia do Norte.
Com a ascenção de Putin ao comando da Rússia, nos anos 2000, a potência passou a reagir à expansão da OTAN, traçando um limite, i.é., não aceitaria o ingresso da Ucrânia e de Belarus.

 

O MEMORANDO DE BUDAPESTE

O fim da URSS causou uma preocupação internacional sobre o destino do arsenal nuclear soviético instalado nas outras repúblicas.

A princípio, o novo governo da Ucrânia indicou interesse no controle dos mísseis que estavam em seu território, o que faria do país a terceira maior potência atômica do planeta, o que foi rechaçado pela ONU.

Foi decidido que todas as armas atômicas seriam transferidas para a Rússia. Nesse sentido, em 1994, foi assinado, na Hungria, o Memorando de Budapeste sobre Garantias de Segurança, acordo político que oferecia garantias à Ucrânia por aderir ao Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares.

O tratado foi subscrito pelas potências nucleares Rússia, EUA, Reino Unido, China e França, e incluiria garantias também a Belarus e Cazaquistão.

Em 2014, quando a Rússia anexou a Crimeia, os EUA acusaram a violação do Memorando de Budapeste; o governo russo sustentou que apenas retomou o território que lhe pertencia, a pedido da população local.

 

DONETSK E LUGANSK

A região de Donbass, na fronteira Rússia/Ucrânia, é formada pelas províncias (chamadas de oblasts) de Donestk e Lugansk, e contém as principais reservas de carvão da Europa. A maioria da população é de cidadãos russos que falam o idioma russo.

Em 2014, grupos separatistas, apoiados por Moscou, declararam independência da Ucrânia. Na segunda-feira (21/2), o presidente Putin reconheceu, oficialmente, a independência das duas “repúblicas”. Nos dias seguintes, sob a alegação de defender os novos países da agressão ucraniana, autoriza o uso da força contra o vizinho.

 

INTERESSE POLÍTICO DOS EUA

No início de 2022, a crise russo-ucraniana, aparentemente, recebeu um novo ingrediente geopolítico: os interesses do governo Joe Biden na política interna estadunidense.

É sabido que Putin agiu a favor de Donald Trump, tanto na sua vitória, quanto na eleição em que saiu derrotado. Especula-se que a intenção de Putin em favorecer Trump era pra “apequenar” o papel dos EUA no cenário mundial, ou seja, sob o comando do desastroso Trump, os norte-americanos perderiam prestígio internacional, possibilitando o aumento da importância da Rússia, que mantém uma relação estratégica com a China para isolar os EUA.

Assim, Biden, que estaria perdendo popularidade junto ao eleitorado, adotou a postura de confronto com a Rússia, utilizando a Ucrânia como subterfúgio.

 

OS INTERESSES ECONÔMICOS – A QUESTÃO DO GÁS

A Rússia é o principal fornecedor de gás para a Europa, sobretudo para a Alemanha. Porém, o transporte tinha que cruzar o território da Ucrânia, que cobrava uma taxa para permitir a passagem, o que encarecia o preço.

Para criar uma rota alternativa, sem passar pela Ucrânia, foi construído o gasoduto chamado Nord Stream 2, que encurtou o percurso em cerca de 1.900 quilômetros e acabou com o “pedágio” ucraniano. Ressalte-se que, em 2006 e 2009, ocorreram as chamadas “Guerras do Gás”, nas quais desavenças entre Rússia e Ucrânia ocasionaram cortes no fornecimento e preços mais altos na Europa.

O gás é considerado uma fonte de energia limpa, o que vai ao encontro das restritivas leis ambientais alemãs.

 

 

ESCALADA DA TENSÃO – A CRISE DO SUBMARINO

Às 10h40 [horário de Moscou, 02h40 de Brasília], do dia 12/02, foi detectado um submarino de classe Virginia, da Marinha dos EUA, em manobras da Frota do Pacífico, nas águas territoriais da Rússia, perto do arquipélago das Ilhas Curilas. A invasão do mar territorial russo por um submarino de ataque nuclear norte-americano foi um fato grave. Segundo a agência de notícias Reuters, a tripulação de um navio de guerra russo repeliu a embarcação estadunidense.

 

A GUERRA

Rússia e EUA são as maiores potências militares do planeta, muito à frente da China, França e Reino Unido – o poderio russo é incomensuravelmente maior que o ucraniano.

Provavelmente, o ataque russo, que tem se mostrado devastador, não descambará para um conflito mundial: Joe Biden não estaria disposto a ir tão longe, e teria que “convencer” o Congresso Americano a permitir a intervenção; a Europa, por seu turno, não quer uma guerra em seu território; a China já declarou apoio à Rússia.

 

POSSÍVEIS CONSEQUÊNCIAS AO BRASIL

Em 2021, o Brasil vendeu para a Rússia cerca de US$ 1,7 bilhão em produtos, o que equivale a apenas 0,6% das exportações brasileiras, fazendo da Rússia o 36.º país para onde o Brasil mais exporta. Contudo, o Brasil comprou da Rússia cerca de US$ 5,7 bilhões, sendo 60% em produtos para a agricultura, como fertilizantes e adubos. Se a guerra se prolongar, poderá haver um desabastecimento e/ou aumento do preço dos insumos para os produtores rurais brasileiros e, consequentemente, um aumento do preço dos alimentos ao consumidor e uma alta generalizada da inflação.

 

CONCLUSÃO

Por fim, é certo que uma nova Geopolítica nascerá após o conflito – com a Rússia delimitando sua área de influência na Europa, que inclui as fronteiras com Ucrânia e Belarus.

(Luís Jose Bassoli é advogado, professor de Geopolítica do Colégio Objetivo e foi professor de Comércio Internacional na Fatec de Taquaritinga. Cursou pós-graduação em Globalização e Cultura na Escola de Sociologia e Política de São Paulo e é pós-graduado em Didática do Ensino Superior pela Unip).

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