Crônica da Semana por Nilton Morselli

Não será dessa vez

Boa noite, senhor.
Agradeço-o pelo envio da gentil mensagem em que me oferece seus produtos. Tenho certeza de que são da melhor qualidade. No entanto, no momento, não posso encomendar nada, nem um mísero grama dos potentes insumos. Suponho que os venda apenas em larga escala. Desculpe-me pela ignorância, mas nem sei para que serve calcário. Um minuto, por favor. Pronto, já pesquisei no Google e descobri que é útil para corrigir a acidez do solo, entre outras coisas.
Não posso, da mesma forma, comprar seus fertilizantes. Mesmo porque não tenho o prazer de ser proprietário de glebas destinadas à produção agrícola. Saiba, amigo, se me permite chamá-lo assim, que meu bisavô foi doador de terras para a formação de Guariroba (é um distrito de Taquaritinga, em que minha querida e saudosa mãe nasceu). O insigne antepassado do lado materno doou tanto de seu patrimônio que não sobrou um palmo de terra para mim.
Sinceramente, não sei se teria conseguido me tornar um agricultor caso tivesse herdado alguns alqueires. Minhas parcas touceiras de cebolinha e as salsinhas que morrem porque esqueço de regar estão aí para provar minha extrema falta de habilidade. Mas, se tivesse terras, talvez pudesse arrendá-las para uma usina plantar cana e entregar-me um cheque ao fim de cada mês. Até que não é uma má ideia.
Não sei como conseguiu meu telefone, talvez num grupo de WhatsApp. Ou então me tenha escolhido ao ver meu sobrenome italiano, e a italianada aqui costuma ser do ramo. Mas desse mato não sai coelho. Digo isso com dor no coração. Daria a mesma explicação de viva voz se o senhor tivesse usado o telemarketing, como fazem as operadoras de celular para ofertar seus planos. Diria tudo isso porque gosto de contar e ouvir histórias. Este é de fato meu ofício.
O agronegócio, prezado caixeiro-viajante digital, é o que está em evidência no momento. Aliás, sempre esteve. (O meu eu chamo de “magronegócio” porque é de pouca rentabilidade. Mas não posso reclamar.) Estamos na região da Califórnia Brasileira, como o senhor certamente sabe. Quando os jovens da minha geração estavam indo para Ribeirão Preto porque era lá, diziam, que o dinheiro estava correndo, eu pensava: se aqui, que o dinheiro está parado, eu não consigo pegar, imagine onde ele está correndo!
Antes de terminar, preciso lhe dizer que outro dia resolvi comprar umas galinhas poedeiras para habitarem meu quintal. Ovo é um alimento nutritivo, além de versátil. Porém, desisti porque as pobres galináceas teriam de aprender a ciscar para frente para não bicarem o próprio pé, a julgar pelo espaço de que disporiam. E pelo preço do milho atualmente, é mais vantajoso comprar a cartela de ovos nos supermercados, que todos os dias enviam suas promoções pelo mesmo canal de que o senhor se serviu para fazer sua propaganda.
Mesmo abandonando a ideia de ser um pequeno avicultor, confesso que já tive vontade de adquirir uma fazenda, uma vez que não contei com a felicidade da herança nem tenho perfil para ingressar no MST. Quem sabe um dia o Magazine Luiza lance um consórcio no melhor estilo “vem ser feliz”. Se esse dia chegar, começaria formando uma roça de bacalhau. Pelos meus conhecimentos rurais, creio que basta plantar manjubinhas e irrigá-las com água salgada para que cresçam viçosas e se transformem no caro e apetitoso produto largamente consumido na Semana Santa. Agro é tec, agro é pop, agro é tudo.
Obrigado por me contatar, mesmo que virtualmente. Despertaste em mim a semente que um dia germinou no coração de meus antepassados que viveram de lavrar o solo, com o suor de seus rostos. Mas, no momento, não estou à altura de encomendar os insumos de sua empresa, para a qual deixo meus votos de sorte e sucesso. Só me resta desejar que eles possam ajudar a mãe terra a parir safras abundantes e suficientes para alimentar, com mesa farta e preços acessíveis, nossos irmãos brasileiros ávidos por um prato de comida nesse país feito, projetado e governado para poucos.

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