Crônica da Semana por Nilton Morselli

Noivos sob tortura

O casamento é um tema que nunca sai da moda porque sempre há gente disposta a juntar os trapos. Embora as uniões estáveis devem superar com larga vantagem os matrimônios oficiais, a certidão lavrada em cartório ainda é exigência sobretudo de algumas mulheres, porque desse bendito papel depende a concretização do sonho de casar no religioso, com direito a véu e grinalda. Sem ele, nada feito.
Maio ainda é o mês das noivas e junho é dos namorados, ou isso já mudou? Porque na esteira das novidades, velhos costumes estão saindo ou já caíram definitivamente de moda. A lista é grande, se levar em conta os detalhes que compõem uma celebração dessa envergadura. Por isso, é melhor restringir o papo aqui ao aspecto comportamental.
Antigamente, ouvia-se muito que a moça tinha “fugido” com o namorado. A prática era comum em relações afetivas que não contavam com a aceitação da família da jovem. Sozinha ou com a cumplicidade de uma irmã, a fugitiva planejava e executava tudo no maior sigilo. Às vezes, saía só com a roupa do corpo e já ia direto para a casa do rapaz, onde ficava escondida por uns dias, ao fim do quais a zanga paterna já estaria amenizada.
Século 21. O mundo é outro. Hoje ninguém mais foge de casa por esse motivo. Não precisa. Há mais liberdade, e todo mundo com 18 anos já se julga dono do próprio nariz. Embora quaisquer pais ainda sejam capazes de identificar um traste, impedir que a filha fique com o traste é cada vez mais difícil. Sogras também têm grande sensibilidade para identificar noras folgadas, principalmente se viverem pelo menos umas 24 horas sob o mesmo teto.
Os chás de cozinha, em que as amigas vandalizavam a noiva sob o pretexto de arrecadar panelas, se modernizaram. Agora se chamam chá bar e contam com a presença também do noivo e dos amigos dele. É uma evolução, pois na festa ninguém tira a roupa de ninguém (pelo menos nas que eu já fui) ou é submetido a outras humilhações.
Em matéria de afrontar a dignidade de um futuro pai de família, nada se compara com a despedida de solteiro, outro evento de que não se ouve mais falar — mesmo porque ninguém mais precisa “treinar em campo neutro” para a noite de núpcias. Participei de um em que os amigos embebedaram o noivo, amarraram uma cordinha de nylon num bloco de pedra de uns dez quilos e a outra extremidade no bilau do rapaz, que era obrigado a ficar carregando o peso para lá e para cá.
Único sóbrio por lá, fui até o carro e voltei com uma tesoura (item obrigatório do kit de primeiros socorros) para cortar, não o bilau, mas a cordinha. Não fosse essa providência e se o rapaz deixasse o paralelepípedo cair, tenho certeza de que a noiva desistiria de se casar com o mais novo eunuco do pedaço.
Uma história de despedida de solteiro que acabou mal teria acontecido aqui por volta dos anos 1950. Para fazer troça com o noivo, a turma o levou para o entroncamento de uma linha férrea. Com os olhos vendados, o moço foi amarrado a dormentes dos trilhos em que o trem não passaria. Ao ouvir a locomotiva se aproximar, o rapaz se debatia feito onça enjaulada na tentativa de escapar, enquanto a horda gargalhava de longe.
O trem realmente rumou para o outro caminho e o grupo voltou para desatar o noivo. Mas, para desespero de todos, um ataque cardíaco o havia fulminado. Morrera de medo faltando uma semana para subir ao altar. E ainda dizem que antigamente as brincadeiras eram sadias. Os candidatos a marido e mulher eram submetidos a sessões de tortura organizadas e executadas pelos próprios colegas. Deve ser por isso que esses mesmos algozes puxavam a venda de pedaços da gravata do noivo durante a festa. Era consciência pesada.

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