Crônica da semana por Nilton Morselli

Cem anos de rádio

Em abril de 1948, quando o Nosso Jornal entrava em circulação, uma notícia estampava a capa: Taquaritinga ganharia em breve sua primeira estação de rádio. O evento se concretizaria em 3 de junho do ano seguinte, quando a Rádio Clube Imperial foi inaugurada de forma oficial. Quase sete décadas e meia depois, a emissora ainda está no ar, modernizada, na frequência FM. Apenas 27 anos separam a estreia do serviço de radiodifusão no país e a entrada em operação da Imperial, “a primeira da cidade”, slogan que ostenta com orgulho até hoje.
Depois dela, vieram a Canal Um FM (1988) e a Massa FM (que nasceu como Mensagem, no ano seguinte). Depois, as Paróquias de São Francisco de Assis, do Jardim São Sebastião, e São Pedro Após, de Guariroba, tiveram experiências com rádios comunitárias, que não duraram muito tempo. Em 2007, entrou no ar a Rádio Planeta Verde, ligada ao Instituto Ambiental Planeta Verde. Uma década depois, foi inaugurada a Cidade FM.
A história da Imperial, porém, é mais antiga, é anterior a sua oficialização junto aos órgãos governamentais. Em 22 de novembro de 1939, de acordo com pesquisa do historiador Milve Perial, entrou no ar uma rádio captada na faixa de 800 kilocyclos, cujo transmissor havia sido instalado em fevereiro no prédio número 38 da Rua Rui Barbosa. Como era a sede do Imperial Footebol Club, a emissora passou a usar o nome de Imperial Rádio Clube. O diretor artístico era Alfredo Mussi e o discotecário, que escolhia as músicas, Mário de Oliveira. Somente dez anos depois, a estação foi organizada sob a forma jurídica de sociedade comercial, conforme destacou o historiador.
Tudo isso aí em cima para registrar que o rádio no Brasil completou seu centenário no feriado de quarta-feira, dia 7. E para destacar que Taquaritinga foi uma das primeiras do interior a oferecer a novidade a sua população. Ou seja, quando foi inaugurada de forma oficial, em 1949, a Imperial ZYT-4 já era uma jovem experiente. Tanto que, em 7 de setembro de 1949 (há 73 anos) transmitiu ao vivo as festividades da Independência, das quais participaram o Orfeão do Ginásio e Escola Normal e as alunas do Conservatório Santa Cecília.
Mas o destaque maior ficou reservado para o lançamento de seu elenco teatral, com o romance musicado de autoria de A. Palacios, denominado “Dois Corações”. Faziam parte da trupe: Dalva Viezi, Natália Bernardo, Elias Dib e Laerte Bellini. A direção era de Toledo Piza e a sonoplastia, de Francisco Locilento. A estreia do elenco “T4” foi um sucesso.
Outros programas foram colocados no ar, naquela oportunidade: Zé Timoteo, com suas poesias sertanejas, e a dupla caipira Zé Pagão e Nhô Rosa, artistas com vários discos gravados. Em outubro de 1949, “A Caçula da Araraquarense” contratou o pianista Robert Peter, da PRE-8, Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Como assinalou Milve Peria, a Rádio Nacional era a emissora mais ouvida no país todo, uma potência comparável à TV Globo, que só nasceria em abril de 1965.
Em 23 de junho de 1950, com grande sucesso, apresentou-se no auditório da ZYT-4 o compositor e cantor pernambucano Luiz “Lua” Gonzaga, que já era um sucesso. Assim como as emissoras de alcance nacional, a Imperial tinha seu regional, que ganhou um programa exclusivo. Às segundas-feiras, das 20h30 às 21h, era colocado ao ar a “Hora da Saudade”, que apresentava músicas românticas: valsas, chorinhos e tangos. O conjunto era composto por Luiz Casali, ao piano, Miguel Nucci, Átila Ferreira Vaz, Gim Carletto, André Francisco, João Macena (o João Nanico, o melhor violonista de sua geração), Antonio Souza Lima e outros musicistas.
Não dá para falar da história do rádio em Taquaritinga sem lembrar de Valdomiro Nuncio, o Nhô Miro, no alto de seus 84 anos e 60 de rádio. Esse tem história (sua biografia vem aí, por iniciativa do incentivador cultural Ico Curti). Uma dessas passagens: Miro apresentava o programa “No sítio do Nhô Miro”, em que vivenciou a evolução de muitos artistas.
“Teve um dia no meu programa que eu fiquei muito comovido com a cena que vi no auditório”, contou em entrevista à jornalista Natalia Galati. Um moço que vinha de Santa Fé do Sul, de carona, estava sentado bem a sua frente. Segundo Miro, o rapaz precisava voltar a São Paulo, onde gravaria um disco. À noite, o radialista faria um show e, com pena do artista, Miro decidiu patrociná-lo.
“Naquele tempo, não tinha televisão e o povo lotava o auditório da Imperial.” Após o show, Miro entregou o dinheiro do evento para o rapaz. Com a ajuda, ele pagou o hotel, comprou uma roupa nova e rumou para São Paulo. “Antes de ele partir, não sabia como me agradecer, lembro como se fosse hoje. Ele até me deixou de presente a braçadeira do seu violão, que eu ainda guardo com carinho”, contou.
Passaram-se alguns anos e o cantor despontou para o sucesso. Era ninguém menos que Sérgio Reis, que voltou para fazer um show na festa da cidade, na então Praça 9 de Julho, uma década depois. “Naquele dia, ele me levou até o palco e disse que se eu não tivesse dado aquele empurrão, ele não teria chegado aonde chegou”, recordou Nhô Miro, emocionado.
Com a chegada da internet, muitos apostavam que o rádio estava com os dias contados, que era um veículo de comunicação decadente. Grande engano: as emissoras se valeram da inovação para introduzir imagens e chegar ainda mais longe, por meio de sites, redes sociais e aplicativos de celular. Algumas só existem na internet – e Taquaritinga também já entrou nessa onda. Vida longa ao rádio e aos valentes que fazem dele mais que um instrumento de trabalho: um meio de informação e entretenimento.

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