Crônica da semana por Nilton Morselli

Não vai ter crônica

Ouço a música na praça e o burburinho das pessoas que sobem e descem a rua, de carro ou a pé, enquanto penso em um tema para a crônica. Uma memória da infância? A cena dos gatos que namoravam hoje à tarde equilibrando-se sobre o muro? O assunto político do momento? Nada, absolutamente nada de original ou minimamente interessante para o leitor me vem à cabeça nesta noite de agosto, véspera do aniversário da cidade.
Claro, por que não discorrer sobre essa efeméride, falar como o povo daqui gosta de festa. Bobagem, a impressão que se tem é que tudo já foi dito sobre o tema, e o povo de qualquer cidade gosta de festa, de show, principalmente se for de graça – desde o Império Romano é assim. Volto à estaca zero. Escrevo um pequeno texto ao editor para avisá-lo de que “infelizmente, nesta semana, não vai ter crônica. Falta-me a matéria-prima. Devo estar precisando de férias ou de um período sabático, no fim dos quais terei amealhado um punhado de anotações que certamente ensejarão textos inéditos. Desculpe-me pela falha”.
Escrevo o recado, mas não o envio imediatamente. Quem sabe encontre, fuçando em arquivos, uma crônica antiga e atemporal para preencher o espaço. Mas a busca não dá o resultado desejado. É melhor pensar mais um pouco. Afinal, um aspirante a escritor não pode depender de inspiração. O nascimento à fórceps de muitos textos que já publiquei é a prova disso. Mas o som lá fora está me tirando a atenção.
Tenho a ideia de telefonar para o Serginho Sant’Anna e pedir uma crônica emprestada. Talvez uma que tenha sido publicada há algum tempo ou uma que ele nem pretenda usar. Eu ficaria à disposição para retribuir o favor se ele, eventualmente, um dia precisasse. Como já é um pouco tarde, acho melhor não importunar o amigo.
Continuo a procura, e abro um sorriso ao encontrar uma pasta, no smartphone, com diversas crônicas começadas. São três com dois parágrafos e duas com apenas um mísero período de no máximo cinco ou seis linhas cada uma. Fora quatro palavras solitárias anotadas. Certamente estão lá para me lembrarem de textos que deveria desenvolver mais mais tarde – e hoje não faço a mínima ideia porque as escrevi.
O leitor não entenderia nada se eu simplesmente juntar os parágrafos que redigi sei lá quando. Não daria uma crônica. O resultado seria um texto sem pé nem cabeça ou com dois pés e duas cabeças, mas sem a espinha dorsal – e uma coluna de jornal, antes de mais nada, precisa de uma coluna vertebral para manter-se em pé. Ou seja, ainda não tenho o texto da semana. Bem, prezado editor do Tribuna, está decidido: não haverá crônica na próxima edição. Peço perdão e que preencha a página como melhor lhe convier. Vou vestir uma calça e um casaco e ver se pego o restinho do show que está rolando na praça, a poucos passos daqui de casa. Quem sabe lá, no meio das pessoas, encontre um bom tema.

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