Crônica da semana por Nilton Morselli

O que o seu pum tem a dizer?

A anamnese, aquele bate-papo entre o médico e o paciente, é fundamental para o diagnóstico. Foi com esse intuito que o naturopata, interrogativa e exclamativamente, dirigiu-se a mim:
– Sabe que a flatulência diz muito sobre você?!
– Doutor, então além de não cheirar bem, meu pum também é fofoqueiro?!
Desculpe-me o leitor pelo caráter um tanto escatológico, mas essa introdução era necessária para o desenvolvimento da crônica, em que o objetivo é discorrer sobre hábitos alimentares. O profissional se referia, evidentemente, ao que os nossos “subprodutos” indicam sobre o nosso comportamento.
Nada de julgamentos. Aprendi que cada um come o que quiser. A não ser que você seja o especialista em consulta, não tem o direito de dizer o quanto de sal a pessoa deve pôr na salada ou se deve comer ou não fritura. Gosto é gosto, e cada um sabe o que está fazendo.
Há não muito tempo, um sujeito que não comia carne era visto um pouco como extraterrestre – e ainda por cima anêmico. Como alguém consegue sobreviver sem uma picanhazinha de vez em quando ou pode resistir a um belo filé acebolado? Pela quantidade de vegetarianos e veganos que conhecemos hoje, a situação parece que está se invertendo.
Atualmente me classifico como um onívoro tentando parar com a porção carnívora. Não vai demorar para que surja uma associação tipo alcoólicos anônimos, destinadas a gente como eu, que já está se envergonhando de dizer publicamente que é devoradora de animais. Reduzi drasticamente o consumo desse tipo de proteína durante a pandemia, primeiro porque o preço subiu muito. Em segundo lugar, mas não menos importante, porque me sinto muito melhor.
Carne é vício, e causa dependência. Quer ver só? Bastava chegar o fim de semana para a boca salivar ao ver a churrasqueira ali, esperando por uma costela de ripa, uma linguicinha e uma panceta estupidamente temperada. Diante dessas tentações, difícil é saber a hora de dizer chega. Vergonhosamente empanturrados, nem fazemos ideia do quanto ingerimos daquela gordura cuja especialidade é entupir coronárias.
Na última vez em que estive em um rodízio de carnes, dei lucro extra para o comerciante. A pista fria, com suas saladas coloridas, estava mais convidativa que o desfile de espetos fumegantes. Depois de dois ou três fatias, virei o disquinho do verde (por favor) para o vermelho (obrigado). Nesse dia tomei consciência de que a natureza começara a virar o meu disquinho interior para herbívoro.
Parece até sacrilégio, eu que venho de uma família de açougueiros de mão-cheia. Desde criança, convivi com farta fabricação doméstica de chouriços, pancetas, kaftas, linguiças variadas, embutidos e carnes recheadas, secas, defumadas ou mecanicamente processadas. Não posso renegar o passado, mas dá para fazer um futuro diferente.
Confesso que a mudança em andamento também tem um forte componente de pós-humanismo e uma boa dose de remorso. Alimentar-se de um ser vivo significa que esse ser teve de ser morto, e isso passou a me incomodar. Aí alguém pode dizer que, na parábola do filho pródigo, o pai mandou matar um novilho gordo para celebrar a volta do rapaz. Se fosse errado, o velho teria dito ao empregado: arranquem uma dúzia de cenouras e algumas abobrinhas. Não custa lembrar que a Bíblia reflete os costumes da época em que foi escrita, e a consciência e a moral mudaram muito ao longo do tempo.
Em matéria de mudanças, talvez nada esteja mais submetido a elas que os enquadramentos da alimentação à luz das descobertas científicas. Estudam-se os impactos biológicos do que comemos. Todos os dias tem coisa nova saindo de bandeja. Nem os aspectos psicológicos escapam das pesquisas. Concluiu-se que a preferência por café sem açúcar pode esconder uma personalidade psicopata, e se o cidadão gosta da gema mole, está a um passo do canibalismo. Exagero. Fosse assim, os peixes crus da culinária japonesa apontariam para uma sociedade antropofágica. E convenhamos que comer um cérebro com hashi deve dar o maior trabalho.
Ninguém duvida de que o funcionamento da máquina humana é melhor quando nos alimentamos saudavelmente. Isso incluiu, é claro, o trabalho eficiente dos nossos intestinos e aquelas coisas todas que o organismo põe para fora. Estava certo o naturopata: quanto mais envenenamos o corpo com substâncias nocivas, mais coisas ruins os “subprodutos” resultantes vão dizer sobre nós. E fica chato quando eles falam alto e, pior, perto dos outros.

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