Lions Club de Taquaritinga (SP) comemora 55 anos de fundação

Texto: Niltom Morselli

Comemorar cinquenta e cinco anos de prestação de serviços à sociedade é uma honra para um Clube que mantém sólidos os propósitos que um dia moveram um jovem empresário de Chicago. A partir da pergunta “e se as pessoas usassem seus talentos trabalhando pela melhoria da comunidade em que vivem?”, formulada em 1917, Melvin Jones lançou o desafio de envolver homens e mulheres de boa vontade na missão de ajudar o próximo. Décadas após, em 1965, um grupo de taquaritinguenses foi tocado pela força das palavras que já incitavam pessoas de todo o mundo a fazer o mesmo. Hoje o Lions Clube de Taquaritinga é parte relevante dessa corrente internacional cujos rugidos alcançam os mais longínquos rincões do planeta.

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A história do Clube que agora celebra mais um aniversário começou na casa comercial de Francisco Parise, que ficava na Praça 1.º de Maio, e na residência do médico Edwil José Ferreira Roncada. A reunião de fundação foi realizada numa segunda-feira, 26 de abril de 1965, na Churrascaria Ypiranga, estabelecimento que ficava em cima da loja de tintas de Francisco Parise, na Praça 1.º de Maio n.º 65, proximidades do atual Terminal Rodoviário de Taquaritinga. Presente na reunião, o professor Arnaldo Ruy Pastore, historiador e repórter sempre atento ao movimento da sociedade da época, relatou os fatos para o semanário “Nosso Jornal” e para a Rádio Clube Imperial, então única emissora da cidade. Coube a Mario Bettarelo, Governador do Distrito L-5, oficializar a instalação do mais novo integrante do Lions Clube Internacional.

Além dos sócios-fundadores, Leões dos clubes de Monte Alto, Franca, Catanduva, Araraquara e Jaboticabal prestigiaram a solenidade, que foi dirigida por Isidoro Nunes, presidente do Lions em Monte Alto, Clube que apadrinhou o de Taquaritinga. Na noite histórica, cumpriu-se o protocolo: Hino à Bandeira; invocação a Deus, por José Lerro Palamone, Governador eleito do Distrito L-5; discurso de Isidoro Nunes referente à fundação do Clube que acabava de nascer; saudação do Governador Betarello; leitura do Código de Ética do Leonismo, por Oscar Palamone Lepre, vice-Governador, de Araraquara; Objetivos dos Lions Clubes, lidos por Arsenio Pagliarini, Presidente da Divisão C1, de Jaboticabal; Compromisso do Leão; instalação do Clube, precisamente às 21h41; e, por fim, a posse da Diretoria.

Nelson Velardo foi investido no cargo de primeiro Presidente do Lions Clube de Taquaritinga, tendo como vice-Presidente Edwil José Ferreira Roncada; 2.º vice-Presidente, Manoel Dante Buscardi; 3.º vice-Presidente, Sebastião Renato Ferraz; 1.º Secretário, Sérgio Pinto Costa; 2.º Secretário, Darcy José Gabriel; Tesoureiro, Florivaldo Rossi; Diretor Animador, Darcy Pedro Marchezi; Vogais, Paul Julio Henriques, Addo Del Grossi, Anibal Gonçalves Vilafanha e Luiz Carlos Pires Gabriel. Na Comissão de Estatutos, José Moacyr Schumann. Na Comissão de Frequência, Osvaldo Anselmo. Na Comissão de Finanças, Genésio Garcia Perez. Na Comissão de Agricultura, Gabriel Teixeira de Paula Netto. Na Comissão de Sócios, Francisco Parise.

Seguiram-se pronunciamentos de vários oradores: Nelson Velardo, José Lerro Palamone, Claudio Curti, José Gavião de Souza Neves, José Eugenio Tramontano, Arsenio Pagliarini, Edwil José Ferreira Roncada, Silvio Leonardi, Celio Pastore, Manoel Dante Buscardi e Joaquim Correia de Melo. A reunião de fundação, anotou o professor Pastore, foi encerrada pontualmente às 23h27.

“Dentre os vários pronunciamentos feitos, bem significativo foi o de Silvio Leonardi, que como ‘Leão’ e Presidente do Catanduva Esporte Clube, cumprimentava o ‘Leão’ Célio Pastore, que, como Presidente do CAT (Clube Atlético Taquaritinga), conseguiu o triunfo do time”, escreveu o repórter. “Servindo-se da oportunidade, disse do contentamento que tinha, como Presidente do Catanduva, pela brilhante vitória do CAT.”

A propósito, o clube de futebol da cidade, fundado em 17 de março de 1942, já era conhecido como “O Leão da Araraquarense”, por ter o rei da selva como mascote. A expressão, cujas palavras designam a força nos gramados e a região geográfica em que Taquaritinga é situada (distante 65 quilômetros de Araraquara), foi cunhada também para dar título ao primeiro informativo do Lions. A edição número um do boletim mensal circulou em novembro de 1965.

Nessa época, a primeira eleição para substituir a Diretoria provisória já havia sido realizada e, como presidente, assumira o CL Edwil José Ferreira Roncada, médico, que mais tarde (1970) também teria a responsabilidade de assumir a Governadoria do então Distrito L-17, atual LC-6. O jornal trazia, em primeira mão, a notícia de que a Carta Constitutiva, documento que oficializava o Clube, havia sido emitida pelo CL Governador José Lerro Palamone. “Representa o Lions Clube de Taquaritinga um grupo pequeno, mas ativo, de uma maneira palpável pela nossa comunidade”, registrou a notícia de capa assinada pelo CL Edwil Roncada. “Esperamos ir muito além, sempre com a decidida e desinteressada, como acontece ao bom Leão, colaboração dos Companheiros e Domadoras.”

Como forma de homenagear os pioneiros desse trabalho, é justo lembrar nominalmente a Diretoria do Ano 1965/1966: além do Dr. Roncada, o único Companheiro Leão do grupo ativo até os dias atuais, os integrantes eram: Nelson Velardo, Past-Presidente; Manoel Dante Buscardi, 1.º vice-Presidente; Sebastião Renato Ferraz, 2.º vice-Presidente; Gabriel Teixeira de Paula Netto, 3.º vice-Presidente; Sérgio Pinto Costa, 1.º Secretário; Darcy José Gabriel, 2.º Secretário; Giné Esparza, 1.º Tesoureiro; Florivaldo Rossi, 2.º Tesoureiro; Célio Pastore, Diretor Social; Darcy Pedro Marchezi, Diretor Animador; Vogais, Luiz Carlos Pires Gabriel, José Moacyr Schumann, Oswaldo Anselmo e Aníbal Gonçalves Vilafanha.

Em seus primeiros meses de formação, o Clube possuía dezenove Sócios-Fundadores, quase todos acompanhados de suas respectivas esposas (Domadoras), uma vez que alguns eram solteiros. São eles: Addo Del Grossi (Isabel), Aníbal Gonçalves Vilafanha, Célio Pastore (Ilde), Darcy José Gabriel (Clara), Darcy Pedro Marchezi (Aurea Aparecida, a Lalá), Edwil José Ferreira Roncada (Dirce), Florivaldo Rossi (Marly), Francisco Parise (Cleyde), Gabriel Teixeira de Paula Neto (Maria José), Genésio Garcia Peres, Giné Esparza (Laurinda), José Moacyr Schumann (Odete), Luiz Carlos Pires Gabriel (Maria Claudete), Manoel Dante Buscardi (Beatriz), Mauro Zuppani (Vera), Nelson Velardo (Edith), Oswaldo Anselmo (Norina), Raul Júlio Henriquez (Maria Nélida), Sebastião Renato Ferraz (Maria Conceição), Sérgio Pinto Costa (Apparecida) e Braz Curti (Amélia).

Lançamento da pedra fundamental da sede social. Algumas personalidades da foto: Sidival, Orides Rubin, Wilson Angoti, Walther Spinelli,Dr. Odilon, Colombo, Dr. Peria; agachados; Clude Micali, Sérgio Salvani e Dr. Edwil

Taquaritinga, o Brasil e o mundo:

Em outubro, o Clube fez a primeira admissão de Sócios e Domadoras, quando ingressaram Hamilton Roberto Aiello, Ibrahim Cheade (Lucila), Leôncio Martinelli (Maria), Luís Calil (Marianne) e Oswaldo Andrade de Lacerda (Wanda). Eles se juntaram ao grupo que arregaçava as mangas e corria ao encontro das boas causas de Taquaritinga, uma cidade em que muita coisa ainda estava por fazer – transcorria, então, seu 72.º ano de emancipação político-administrativa –, uma vez que Taquaritinga foi fundada em 8 de junho de 1868 e emancipada em 16 de agosto de 1892.

Os anos sessenta foram um período dos mais intensos, dentro e fora do país, a ponto de Eric Hobsbawm, notório historiador britânico, mais tarde afirmar: “Se a década de 60 foi a década de transição do século 20, 1965 foi o ano de transição da década de 60”. As transformações eram, de fato, profundas.

Taquaritinga, que se destacava como maior produtora de tomate, era administrada pelo prefeito Dr. Waldemar D’Ambrósio (*1917 +2005). O Brasil vivia os primeiros efeitos do Golpe de Estado de 31 de março de 1964, que se prolongou até 1985, quando ocorreu a redemocratização. O golpe pôs fim ao governo do presidente João Goulart, o Jango. Quando o Lions Clube foi fundado, o presidente Castello Branco estava no poder havia pouco mais de um ano. O Ato Institucional n.º 2, baixado por Castello Branco, cassou os partidos e instituiu eleições indiretas para Presidente e vice-Presidente da República.

Na cena cultural, 1965 foi o ano em que o grupo Demônios da Garoa chagava ao topo das paradas de sucesso com o samba “O Trem das Onze”. O álbum “Getz/Gilberto”, de João Gilberto e Stan Getz, com participação de Tom Jobim, conquistava quatro prêmios Grammy: melhor álbum, melhor música (“Garota de Ipanema”), melhor disco de jazz e melhor arranjo não clássico.

Internacionalmente, o líder negro Martin Luther King era preso em protesto por direitos civis, no estado do Alabama, nos EUA. Ao mesmo tempo, as preocupações com o futuro do planeta apareciam. O termo “educação ambiental” foi usado, pela primeira vez, na Conferência em Educação de 1965, realizada na Universidade de Keele, no Reino Unido.

Uma coincidência histórica chama a atenção: o Lions Clube de Taquaritinga foi fundado no mesmo dia em que a Rede Globo de Televisão era inaugurada oficialmente no Rio de Janeiro, com a transmissão do programa infantil “Uni Duni Tê”. Hoje, a Globo é uma das maiores emissoras de TV aberta do mundo.

Depois de alguns anos, a churrascaria ficou pequena para comportar as reuniões do Lions, que passaram a ser realizadas no Nipo Clube, cujas instalações eram cedidas pelo Presidente da época, Fideo Kamada. Do surgimento do Clube até hoje, um grande número de homens e mulheres passou por seu quadro associativo. A tradição e o arrojo que sempre estiveram presentes em suas lutas e conquistas estão indelevelmente marcadas na história do município. Essa trajetória de sucesso é o combustível que o mantém ativo até hoje e certamente está fixada no coração de cada Companheiro Leão/Domadora e Companheira Leão que aceita o desafio de dar continuidade ao trabalho iniciado naquela memorável noite de segunda-feira na Churrascaria Ypiranga.

Em 1965, o Brasil era um país muito diferente. O IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) contabilizava 84,3 milhões de habitantes, menos da metade do atual contingente populacional, de 203,7 milhões, segundo o mesmo órgão. Inserida nesse contexto em expansão, Taquaritinga, no ano de fundação do Clube, tinha 26 mil moradores, número também inferior à metade do atual, em torno de 60 mil habitantes.

Mesmo pequena (normal, porém, para os padrões da época, como comprova a proporção demográfica), a cidade apresentava uma quantidade considerável de pessoas que precisavam da ajuda da sociedade. Como preconizado por Melvin Jones, a missão do clube de serviço que se tornaria o maior do mundo (são 46 mil clubes e 1,35 milhão de associados em 206 países) era fazer a diferença na comunidade.

Nesse sentido, um dos primeiros eventos públicos promovidos para levantar fundos foram cinco espetáculos da Companhia Italiana de Marionetes “Rosana-Picchi”, apresentados de 1.º a 5 de junho, no Cine São Pedro. Os recursos arrecadados foram integralmente aplicados “às instituições de amparo à pobreza e casos que requeiram socorro imediato”, conforme nota de agradecimento publicada na imprensa. Foi sucesso de bilheteria.

Naqueles primeiros meses de existência, foram empreendidas várias atividades filantrópicas. Algumas delas: 58 pares de calçados para as crianças do Lar São João Bosco, além de 120 pratos e 120 copos de alumínio; para o Albergue Noturno, 2 sacos de arroz, 1 saco de leite em pó e 1.500 telhas; a Sociedade de São Vicente de Paulo recebeu 2 sacos de leite em pó, 100 cobertores, 3 sacos de arroz e 2 sacos de açúcar; distribuição de alimentos, vestuário e ajuda financeira a diversas famílias pobres, no valor de Cr$ 964,260; entrega de 10 cobertores aos detentos; à Guarda-Mirim foram destinados 80 metros de tecido para confecção de fardamento; as Domadoras distribuíram, em junho de 1965, 18 enxovais para recém-nascidos, 20 quilos de biscoitos e 15 peças de roupas avulsas; Cr$ 20.000 para recreação de jovens; custeio das despesas de viagem, estadia e honorários médicos para o tratamento de uma criança em hospital especializado em queimaduras, em São Paulo; um saco de arroz e 50 latas de massa de tomate ao Primeiro Grupo Escolar; o Departamento Médico (Comissão de Saúde e Bem-Estar) proporcionou 83 consultas, 11 cirurgias de amígdala, 13 exames cardiológicos, 3 hernioplastias, 9 partos, uma cirurgia de apendicite e 3 curetagens.

Por meio de atividades sociais, o Lions Clube se faz presente na vida da comunidade. O apoio a diversas entidades assistenciais, como o Lar São João Bosco, o Lar São Vicente de Paulo (Asilo) e a Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (APAE) foi um das frentes de trabalho que deram ótimos resultados. A montagem de uma completa marcenaria no Lar São João Bosco pode ser lembrada como uma dessas colaborações edificantes. As máquinas serviram para a oficina de artesanato que passou a funcionar nas dependências da instituição, fundada pelo Cônego Lourenço Cavallini (*1919 +1998).

Dentre todas as iniciativas do Clube nesta trajetória de sucesso, a maior delas foi a fundação do Hospital de Olhos Lions “Manoel Dante Buscardi”. Inaugurado em 6 de janeiro de 1995, o Hospital é referência regional no tratamento de doenças oftalmológicas, tendo devolvido a visão a milhares de pessoas. Mais que uma instituição de saúde, é o símbolo da união de esforços e do comprometimento que o Lions Clube de Taquaritinga tem com a comunidade.

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