Infectologista da Santa Casa de Taquaritinga (SP) fala sobre os avanços no tratamento contra a Covid-19

Após oito meses de pandemia, muito se aprendeu sobre os efeitos da Covid-19 e como evitar que o vírus aja de forma severa em nosso organismo. Interruptamente, a comunidade médica vem se dedicando para descobrir novas condutas que evitem que o quadro de saúde do paciente passe para um estágio crítico de forma rápida, podendo evoluir para o óbito.

Em entrevista ao Jornal Tribuna, o médico infectologista da Santa Casa de Taquaritinga/SP, Dr. Daniel Elias de Oliveira, aborda os avanços que a medicina conquistou desde que foi obrigada a lidar com o ‘inimigo desconhecido’. Ele já adianta: estudos em relação ao diagnóstico precoce e tratamento das pessoas infectadas já reduzem o número de mortes e de internações em decorrência da doença.

“Além de visar a disseminação do contágio pela Covid-19, as medidas iniciais tomadas, principalmente o isolamento social, também tinham a finalidade de dar mais tempo aos profissionais de Saúde para que todos conhecessem melhor esse vírus e, assim, optarem por qual caminho seguir. Os hospitais também foram estruturados com os equipamentos necessários para atender a demanda de infectados. Um paciente que se infecta hoje com a doença tem maiores chances de ser curado do que a pessoa que ficou doente no mês de Abril, por exemplo”, explica.

Apesar dos profissionais ainda estarem debruçados sobre pesquisas e protocolos comprovados de tratamento, os médicos trabalham com maiores evidências em relação a medicamentos e práticas que diminuem os efeitos colaterais do vírus no corpo, como o diagnóstico precoce e a divisão dos estágios da doença em três fases.

Dr. Daniel Elias de Oliveira, infectologista da Santa Casa de Taquaritinga (SP)

Diagnóstico precoce: No início da pandemia, a orientação para toda a população era de que um paciente que apresentasse sintomas leves da Covid-19 permanecesse em casa e só procurasse um hospital caso não percebesse melhora. Agora, o cuidado com uma pessoa suspeita de estar contaminada deve ser precoce e, aos primeiros sinais de infecção, pede-se que ela procure atendimento médico imediatamente para se avaliar a gravidade do caso.

“Quando o paciente comparece no ambulatório para o primeiro atendimento, é realizada uma triagem para captar informações que auxiliarão no diagnóstico. São feitos os exames físicos e de imagem, principalmente em pessoas que apresentam sintomas graves. O teste laboratorial, conhecido com PCR, é colhido entre o 3° ou 4° dia de sintomas, pois é neste período que a carga viral está alta no hospedeiro”, disse.

O médico ainda enfatiza que o vínculo epidemiológico (ou seja, o fato de que se o paciente avaliado teve contato com alguma pessoa infectada) ainda é considerado importante no momento do diagnóstico. 

Estágios da doença: Já avaliado por um profissional da Saúde, o paciente pode ser orientado a retornar para a casa e observar seu quadro clínico pelos próximos dias, ou então, ser encaminhado para internação caso haja necessidade. “Deve-se avaliar o risco de cada pessoa; as diabéticas, hipertensas ou com distúrbios trombóticos exigem um olhar mais cauteloso do médico. O oxímetro está sendo um grande aliado nosso na consulta, pois se a saturação do paciente está abaixo de 93%, há grandes chances dele precisar de internação. Esse quadro de pouca oxigenação no sangue sem queixa de falta de ar é o que chamamos de ‘hipóxia silenciosa’; uma condição que está sendo muito citada nas pesquisas sobre a doença”, relata.

O estágio inicial seria a fase pré-sintomática; o paciente está contaminado e já transmite o vírus, mas os sinais da doença não são evidentes. “É por esse motivo que o distanciamento social e o uso de máscaras de proteção são tão importantes”, enfatiza.

O início dos sintomas aparece logo após o período de incubação é caracterizado pela manifestação de febre, dor de cabeça e irritação na garganta. Com o diagnóstico rápido, a maioria dos pacientes tende a apresentar melhora no quadro e conseguem eliminar o vírus neste estágio.

Pacientes que não apresentam boa resposta imunológica contra o vírus evoluem para a terceira fase da doença. É nesta etapa que sintomas mais agudos se manifestam e a pessoa infectada passa a sofrer com a falta de ar e inflamação em órgãos (como pulmão e rim), além de necessitar de ventilação mecânica e cuidados intensivos.

Em relação às pessoas infectadas, estima-se que 90% dos pacientes apresentam sintomas leves e que 80% dos casos são assintomáticos. O grupo contaminado em que procura uma unidade médica após a manifestação da enfermidade é considerado a minoria nesta pandemia; cenário que o médico define como ‘a ponta do icerberg’.

Medicamentos: O grande avanço no combate a Covid-19 ainda não está relacionado diretamente ao vírus, e sim, nos efeitos que ele causa no organismo do paciente. Remédios apontados como promissores no combate ao vírus, através de observações clínicas, hoje já não fazem parte do arsenal terapêutico dos especialistas; é o caso da Hidroxicloroquina.

Anteriormente recomendado na fase viral, o remédio foi retirado dos protocolos de unidades médicas referências como o Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto. Embora tenham diretrizes para o tratamento, o médico tem autonomia para seguir a conduta que julga correta, tendo liberdade em prescrever o medicamento caso o paciente esteja de acordo.

Segundo o infectologista, o único antiviral que apresentou resultados favoráveis foi o Remdesivir; criado para combater o Ebola, o remédio é encontrado nos Estados Unidos e na Europa, não sendo produzido no Brasil, o que eleva seu custo.

O médico ainda enfatiza que a mortalidade pela doença em Taquaritinga é considerada baixa quando comparada a outras unidades hospitalares da região. “Infelizmente, os pacientes que desenvolveram o estágio grave da doença iriam ter complicações em qualquer outro hospital”, esclarece.

Quanto às estruturas hospitalares para atender os pacientes, o infectologista ressalta que, no início da pandemia, nenhuma unidade em que ele atua sofreu com falta de repasses e que todas tiveram condições de se equipar com o que havia disponível no mercado, exceto pela falta de equipamentos (devido a grande demanda) e EPI’s para a proteção dos profissionais de Saúde.

Para prevenir o contágio do novo Coronavírus, as recomendações seguem as mesmas diretrizes traçadas no início da pandemia, como lavar as mãos com água e sabão ou higienizá-las com álcool em gel 70%, não compartilhar objetos pessoais, utilizar máscara de proteção individual ao sair de casa, evitar aglomerações e manter os ambientes bem ventilados.

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