Em Taquaritinga (SP): Dr. Edwil Roncada; voluntarismo a serviço da vida

(Por Nilton Morselli)

Em 2015, o Lions Clube de Taquaritinga/SP comemorou meio século. Apenas um companheiro leão da leva de fundadores ainda fazia parte do quadro de associados: o médico Edwil José Ferreira Roncada. Aos 91 anos completados em 2 de junho, esse bravo taquaritinguense jamais virou as costas para o serviço voluntário em prol da comunidade carente, seja no Lions, na Loja Maçônica Líbero Badaró, na Santa Casa ou no Hospital de Olhos Manoel Dante Buscardi, este fundado pelos leões há 25 anos.
No Lions, foi o segundo presidente (assumiu poucos meses após a fundação, em 1965) e governador distrital. Foi no Hospital de Olhos, que dirigiu por dois mandatos, que sentiu uma das grandes emoções de sua vida, ao testemunhar o exato momento em que uma criança do Tocantins, curada de cegueira reversível, contemplava pela primeira vez a figura da mãe. Ele relatou:
– O momento que mais me arrepiou foi quando se retirou o tampão dos olhos. Ele viu a mãe e soltou um berro: mãe, estou te vendo! Isso pagou tudo o que eu passei no começo do hospital, quando a gente tinha de comprar, do bolso, a comida e o lanche para os médicos que vinham de Campinas. Todo esse sacrifício que passamos no começo foi esquecido no momento em que o menino deu aquele berro. É muito difícil uma criança com catarata congênita recuperar a visão. Nós e a família sabíamos disso antes da operação. Mas, graças a Deus, deu tudo certo.
Filho do casal Edwil Roncada e Ana Ferreira Roncada, passou a infância brincando na Praça Conselheiro Antonio Prado, atual Praça Dr. Waldemar D’Ambrósio. A farmácia do pai ficava em uma das esquinas, onde até outro dia ficava o escritório da Unimed. Ali também viu nascer seu único irmão, Paulo Geraldo, coronel do Exército. Viúvo da professora Dirce Gil de Oliveira Roncada, é pai de Edwil e Anelize, que lhes deram quatro netas: Lívia, Thaís, Letícia e Larissa.
Dr. Roncada revelou que a vocação profissional era um sonho de infância, concretizado em 1953 na famosa Escola Paulista de Medicina. De volta a Taquaritinga, como médico sanitarista teve de debelar uma prática que manchava o título de capital mundial do tomate ostentado pela cidade com tanto orgulho. Recebeu ordem, do governo de São Paulo, para destruir as plantações pulverizadas com neantina – um agrotóxico letal. “Esse produto destrói o rim e o fígado, e a pessoa acaba morrendo”, explicou em rara entrevista, cinco anos atrás, ao extinto “Nosso Jornal”.
Em meio século de exercício da medicina, fez nada menos do que 6.822 cirurgias. “Estão todas fichadas”, contou ele, no consultório contíguo à casa no cruzamento das Ruas Visconde do Rio Branco e Campos Sales, onde passou grande da vida. “Tem um detalhe: nunca perdi um paciente na mesa”, disse o recordista do bisturi, que cursou oito anos de piano com a fundadora do Conservatório, a saudosa Lúcia Fanelli. Em um armário de vidro, guardava duas recordações: frascos devidamente embalados do xarope e do regulador Roncada, medicamentos criados e comercializados pelo pai farmacêutico – que inventou também o fortificante Kolacernol.

Homem de fé
“Um tio que insistiu para eu prestar o vestibular, Joaquim Ferreira, mais conhecido como Neguito, era o âncora da família. As ideias dele eram sempre extraordinárias. Morava em São Paulo. Um dia, estávamos de saída para uma propriedade minha em Quatá, perto de Tupã, que ele queria conhecer. Estava tirando o carro da garagem às seis e pouco da manhã, quando vem um homem correndo pela rua dizendo: doutor, me faz uma consulta que estou precisando. Virei para o meu tio e disse: ele não poderia ter chegado cinco minutos depois!? Meu tio respondeu: não, senhor. Chegou na hora certa. Você pode me dizer que se nós saíssemos agora não iríamos topar com um caminhão lá na frente? Ou se foi Deus que mandou esse homem aqui para ficamos mais dez ou quinze minutos? Meu tio era espírita (eu sou católico) e dizia que só levamos dessa vida o que fazemos de bem. Dizia que, apesar de meu gênio ser forte, que eu procurasse fazer o bem. Assim eu fiz. Até os sonhos refletem os nossos atos, bons ou ruins. Apesar do meu gênio, creio que não tenho nenhum inimigo. Deus nos manda muita coisa boa, mas também tem muita coisa que Ele nos dá como provação. Não podemos nos rebelar, porque é algo mais acima que está enviando para nos provar.”

Dr. Roncada, médico e humanista, faleceu na terça-feira (27). No meio da tarde, seu corpo foi trasladado para Quatá, onde ocorreu o sepultamento.

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