Crônica da Semana por Nilton Morselli

Questão de sobrevivência

Em recente estada na Europa, meu amigo João Pedro passeava pela Espanha quando foi interpelado por uma jovem que pedia dinheiro na rua. Os pedintes, como se sabe, não são exclusividade brasileira.
Como distribuir dinheiro não está fácil para ninguém, sobretudo em euro, como bom brasileiro, começou a falar em inglês para, na possível confusão de idiomas, ir escapando da insistência da moça. Mas, para surpresa do João, ela respondeu no idioma de Shakespeare.
Diante do perfeito inglês britânico, aí não teve jeito. Na Europa, até os pedintes são poliglotas ou aprendem um segundo idioma. É uma lição que os turistas trazem de volta. E pensar que no Brasil tem muito graduado que não domina nem a língua pátria!
De volta ao país, meu amigo esperava no carro a noiva fazer uma compra na farmácia quando se apiedou de um mendigo. Raspou as moedinhas que repousavam em um compartimento do painel, amealhando sessenta centavos, e as entregou ao rapaz que sequer pedira alguma coisa. E ficou vendo o celular.
De repente, vem à janela do automóvel um moço, em mangas de camisa, com um violão nas mãos.
– Vou cantar uma música para o senhor – anunciou.
– Colega, sei que depois você vai solicitar uma colaboração. Te adianto que dei todos os trocados que tinha para o rapaz ali.
– Não tem problema, chefia, vou cantar mesmo assim – respondeu com bastante educação, fazendo um pot-pourri com duas canções sertanejas, uma de João Mineiro & Marciano e outra que meu amigo não lembra o nome.
Terminado o show, cumprindo a segunda promessa, o cantor descumpriu a primeira, e fez uma tentativa de descolar alguma grana. Mas ouviu que fora avisado com antecedência que não mais havia dinheiro embarcado.
Com as novas tecnologias, as pessoas deixaram mesmo de usar o papel-moeda nas transações. Convenhamos, a crise também tem peso nisso aí, tá ok! Como dinheiro na mão é vendaval, é melhor usar o crédito ou o débito, quando apenas o necessário sai da conta.
Se tivesse uma moeda nos bolsos, certamente meu amigo de coração mole pagaria pela apresentação artística exclusiva sem pensar duas vezes. Para tentar sair da situação, sugeriu:
– Você precisa de uma maquininha de cartão.
– Isso eu não tenho. Mas estou vendo que o senhor está com o seu celular aí. Pode me pagar por Pix!
– Você tem Pix?!
– Sim, senhor. Sou morador de rua, mas tenho conta no banco, um celular e uma barraca, se quiser pode me acompanhar até a praça pra ver.
A história termina com o João fazendo um Pix de cinco reais em favor do músico, de quem não se pode esperar completo domínio do instrumento nem tampouco afinação de rouxinol. Isso pouco importa. O que vale é a estratégia.
Passeando por Barcelona ou comprando remédio numa modorrenta noite de domingo no interior de São Paulo, nunca se esqueça de que falar outro idioma e dominar uma tecnologia já não são exclusividades de uma casta que ainda pode pagar por casa, comida e roupa lavada. O mundo, decididamente, é outro. Certo estava Drummond quando alertou: “Viver em sociedade requer instinto de formiga, presas de leão e habilidade camaleônica”.

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