Crônica da semana por Nilton Morselli

O dilema da comida à vontade

Não se sabe ao certo a origem do rodízio de comidas, mas o inventor deve ter sido um grande cara. Há uma versão de que foi nos anos 1960 na Churrascaria Jacupiranga, de Albino Ongaratto, na cidade paulista de Registro. A invenção teria sido resultado de uma eventualidade, segundo a lenda, depois que um garçom se atrapalhou com o movimento e trocou os pratos. Como os clientes reclamavam ostensivamente, Albino resolveu a parada: mandou servir todas as mesas com os pratos que quisessem. Os comensais gostaram e a casa adotou o novo sistema.

Fui um adepto de rodízios. Já frequentei o de carnes, de pizzas, de massas em geral, de comida japonesa e até de pastéis. Me lembro de tardes em que ficava “jiboiando” em casa depois de me refastelar pelo sistema de comida à vontade. Não sabia direito a hora de parar. Um amigo dizia: a hora de virar o disco do verde para o vermelho é quando dá ânsia. Cheguei perto de tal disparate – ai que vergonha.

Quinze quilos a menos e quinze anos a mais, hoje meu comportamento alimentar voltou ao padrão de normalidade. Nada melhor que o distanciamento histórico para uma análise racional dos fatos e constatar que já dei prejuízo em rodízios. Mas agora seria o freguês dos sonhos de toda churrascaria: pagaria o preço cheio e comeria pouco. Nesse caso, o garçom me ofereceria a opção do meio rodízio no lugar do completo. É cilada. Você gasta um pouco menos, mas fica sem a picanha e o queijo coalho.

O mesmo vale para os demais tipos, com outros alimentos. Hoje, o meu maior prazer é levantar da mesa com uma sensação de leveza, de estômago e consciência, de modo que consiga correr uma maratona daí a duas horas. A maratona é só força de expressão. Atingir esse grau de civilização não foi fácil diante de tanta variedade e, claro, da sensação de custo-benefício. Tem gente que não para antes de “honrar” cada centavo.

A psicologia e a economia são duas ciências que se cruzam no rodízio. A pessoa pode estar saciada, mas continua a mandar para dentro pensando no desembolso. Certamente você já ouviu alguém dizer que não vai à Festa da Cerveja do Lions Clube porque “não bebe 300 reais”. A festa realmente não foi feita para alguém beber 300 reais. O preço do ingresso paga o chope, o refrigerante, a comida, a música, a segurança e o encontro com os amigos. Uma noite de diversão vale pelas sensações que ela proporciona, nunca pelo que se carregou no estômago.

A lógica da comida à vontade é: do ponto de vista da satisfação do cliente, permitir que se experimente todos os sabores. Do ponto de vista do lucro: quem come pouco paga o mesmo preço e compensa o desfalque de quem come muito. E alguns lugares ainda se lê o recado na parede: reservamo-nos o direito de suspender o atendimento caso haja desperdício. Outro, ainda mais cafona: é proibido levar comida para casa.

Já vi gente usando estratégia na tentativa de levar uma reserva para mais tarde. A família termina a refeição e o pai pede ao garçom que embrulhe as sobras para ele dar ao cachorro. O filho fica todo feliz: oba, vou ganhar um cachorro! Criança não mente e às vezes desmente os adultos nas horas mais impróprias. Nunca minta na frente delas.

Os sistemas de livre acesso às pistas quentes e frias dos restaurantes é um fenômeno mundial. Em inglês, que não é dado a eufemismos, rodízio se chama “all you can eat”. A tradução literal é “tudo o que conseguires comer”. Há casas que oferecem a opção de o freguês pesar o prato para decidir se compensa mais comer por quilo ou partir para o sirva-se à vontade. Os resorts geralmente funcionam com o “all inclusive” (tudo incluído), o que é empolgante. No terceiro dia, você olha para a comida e tem a sensação de que ela está olhando feio para você.

É interessante como a nossa relação com a comida – e a bebida também – vai mudando ao longo do tempo. Percebemos, às vezes tarde demais, que qualidade é melhor que quantidade. Porções e doses menores respondem ao físico e ao espírito com a sobriedade dos que buscam só o essencial para a sobrevivência, longe daquela necessidade de levantar à noite para tomar um antiácido. Mas jamais recriminarei quem segue gostando de rodízio, seja do que for. Proponho até um brinde ao garçom sem nome e trapalhão que trocou os pratos e, sem querer, inventou o sistema que os brasileiros adoram.

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