Crônica da semana por Nilton Morselli

O homem conectado

Pela ampla janela de minha sala de trabalho, avistei um homem sentado na praça. Não trazia consigo um jornal nem tinha amigos em volta ou um cachorro a lhe fazer companhia. Manuseava um telefone celular, o hábito que aprisiona quase todos os mortais que conheço, da criança ao homem de meia idade. Os mais velhos, ainda, nem tanto.
Numa espécie de catarse tecnológica, o homem sorria. Certamente, não estava lendo a mensagem de um parente ou de um amigo a transmitir alguma notícia alvissareira. A probabilidade maior era a de que estivesse olhando memes, pensei. Meme é uma palavra da novilíngua que se estabeleceu com o advento da internet e está por aí desde a invenção do e-mail.
O homem, com seus cinquenta anos presumidos, carregava uma pasta preta, que deixou do lado enquanto matava o tempo. Talvez esperasse o horário de alguma reunião nas imediações, ou fosse um representante comercial descansando do almoço. Se alguém passasse por lá e levasse a tal pasta, ele nem se daria conta do furto, tamanha era a sua concentração na pequena tela que lhe roubava a visão lateral.
O aparelho, que empunhava com apenas uma das mãos, estava a no máximo dois palmos dos olhos, a cabeça meio voltada para a frente. De repente, uma mulher se juntou a ele. Trocaram algumas palavras. Em seguida, ela também sacou o smartphone da bolsa e começou a fazer o mesmo: olhar para a telinha, provavelmente sem piscar. O ágil movimento com a mão direita era de quem rolava o feed de uma rede social.
A cena, pensei com meus botões, é uma amostra da nossa vida atual, apequenada pelo mini computador que carregamos para lá e para cá. Esquecê-lo em casa dá a sensação de que não vestimos a roupa íntima. Falar com alguém, de viva voz, é o que menos fazemos. Todas as outras funções parecem mais atrativas. Rolamos a página eletrônica de maneira automática, sem nos darmos conta de que buscamos o inusitado. Por que sempre temos esperança de que, logo abaixo, encontraremos algo interessante para ver – ou ler, desde que não nos custe mais do que 30 segundos?
Talvez porque o novo ritmo da vida seja esse aí mesmo, e não haja mais volta. A cadência imposta pela tecnologia criada para prender a nossa atenção obteve sucesso. De consumidores passamos a ser o produto, pois os nossos dados pessoais e preferências passaram a ser ofertados no mercado, inclusive para aqueles que amanhã tentarão nos aplicar um golpe. Somos nós mesmos quem entregamos tudo de mão beijada aos cadastros e aos algoritmos cujo funcionamento desconhecemos, mas alimentamos ao aceitarmos os cookies – se ao menos fossem de chocolate!
Decerto as pessoas que não mergulharam nesse universo paralelo, que vivem à margem da sociedade digital, já compõem uma minoria. Pesquisas futuras dirão que elas são mais felizes, embora alijadas das modernidades e alheias ao turbilhão de informações disponíveis no ciberespaço. E mais felizes serão exatamente porque vivem alheias às modernidades e ao turbilhão de informações disponíveis no ciberespaço.
Mas nem todas as pessoas estão engajadas nas redes sociais. Mesmo muitas que lá mantêm seus perfis sabem tirar proveito delas e das possibilidades que a internet oferece. Não brigam por causa de política, não a usam para desancar e produzir desafetos ou fazer reclamações do restaurante em que acreditam ter sido mal atendidas. Cada um posta o que quer, mas transformar uma ferramenta de agregação social em muro de lamentações é perda de tempo e exposição desnecessária. Ainda bem que existe a função excluir e bloquear os chatos e inconvenientes.
Seriam o smartphone e suas funcionalidades um caminho sem volta? Ao criar facilidades para dificuldades que não tínhamos, eles nos submeteram a uma escravidão mental e a um tipo de dependência emocional comparável à de outros vícios. Embora saibamos que exista vida real – e que ela é infinitamente melhor –, a aldeia virtual em que nos metemos oferece o conforto da não-relação humana. A comunicação reduzida à linguagem binária é uma ambiguidade, pois o que interliga continentes também separa vizinhos de muro. Esse mundo irreal não entrega o que promete. Aliás, nem chega a prometer. Nós é que criamos falsas expectativas. Me vi refletido no casal sentado na praça, e tive vontade de regredir ao tempo em que os influenciadores analógicos usavam a estratégia do olho no olho. Creio que ainda haja tempo para retroceder, mas desde que curtir e compartilhar sejam verbos conjugados de braços dados com alguém de carne e osso.

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