Crônica da semana por Nilton Morselli

Figurinhas

Nesse restinho de ano, teremos eleições gerais e Copa do Mundo. Ambas guardam pouca relação. Mas, figurativamente, algumas analogias podem ser feitas entre política e futebol, o que não é uma novidade. Já foi dito que a tal da polarização, por exemplo, mantém o Fla-Flu de 2018, o Corinthians x Palmeiras das urnas. As duas contendas acontecem a cada quatro anos. A outra relação – a que mais me interessa – são as figurinhas. Tanto a Copa da Fifa quanto o pleito capitaneado pelo TSE as possuem. Enquanto no caso da primeira os pacotinhos com a fotografia dos jogadores são vendidos na banca de revistas, a segunda oferece os santinhos gratuitamente.
Quando eu era criança não me era disponibilizado dinheiro para fazer o álbum, tinha de me divertir vendo o dos outros. No máximo, dava para comprar uma marca baratinha de chicletes que vinham embrulhados com as figurinhas dos atletas mais famosos. Era suficiente para jogar “bafo” com os amigos, ganhando algumas e perdendo outras.
O economista e comentarista da rádio CBN Marcelo D’Agosto fez as contas e concluiu que, para completar o álbum da Copa, é necessário dispor de um bom dinheiro, além de estratégia. Com “apenas” R$ 40, você compra dez pacotes de 5 figurinhas e cola cerca de 42. Empolgado, você volta à banca e compra mais dez, chegando a 74 craques colados. Fica com cerca de 26 repetidas.
Com mais R$ 40, o colecionador chega a 30 pacotes e R$ 150 cromos. No mundo das probabilidades, 99 coladas no álbum e 51 repetidas. Com mais R$ 40, os números sobem, respectivamente, para 119 e 81. Aí bate aquela sensação de que a sorte foi embora, segundo Marcelo, pois saem mais repetidas do que as esperadas.
O álbum básico custa R$ 12 e o de capa dura, R$ 44,90. Cada pacote com 5 sai por R$ 4. No total, são 670 espaços em branco para serem completados com figurinhas (134 pacotes). Isso daria R$ 536 apenas os cromos, mas a estimativa é furada por causa das repetições. Só comprando, o dono do álbum gastaria em torno de R$ 3 mil (cerca de 800 pacotes).
Para não gastar tanto, o jeito é ir aos encontros de trocas, geralmente nas proximidades da banca – e ficar esperto para que não lhe passem a perna. Comprando e trocando, o desembolso médio para completar o álbum fica em torno de R$ 650. Ou seja, não é para qualquer orçamento familiar.
Decidi: não será dessa vez que colecionarei retratos de Neymar, Messi, Harry Kane, Sérgio Ramos e outros craques do futebol mundial. Assim como na infância, vou juntar santinhos da campanha eleitoral e, pela primeira vez, montar um álbum com os candidatos aos cargos em disputa. Pretendo não gastar nada, além de cola e um caderno. A jogada é a seguinte: começarei pelos presidenciáveis à esquerda e à direita, avançarei pelos postulantes ao governo do Estado, passando pelos senadores e chegando aos deputados estaduais e federais. É gente pra dedéu.
Sei que o périplo não é tão fácil, exige dedicação e um bocado de tempo. Andarei prestando atenção nas calçadas, examinarei diariamente a caixa de correio e receberei de bom grado o material distribuído por cabos eleitorais. As figurinhas carimbadas por aqui, nesse caso, são as mais fáceis de encontrar: Baleia Rossi, Ricardo Izar, Ricardo Silva, Leo Oliveira. Bom começo.
Certamente, encontrarei outros colecionadores para efetuar permutas. Creio que dois Celso Russomanno valerão, por exemplo, um Dr. Bactéria (sim, aquele mesmo do quadro do “Fantástico”). Por uma razão numérica, um Tiririca e um Eduardo Bolsonaro se equivaleriam – o segundo se apropriou da milhar com a qual o humorista concorria, gerando alguma polêmica. São desafetos dentro do mesmo partido, o que às vezes acontece no futebol e até nas melhores famílias. Ao Caio Forcel, aqui da nossa terra, reservei a primeira página. Amigos a gente trata com mais carinho.
Aos que quiserem entrar na brincadeira, uma dica valiosa: as figurinhas que não encontrar por aí podem ser obtidas no álbum virtual do TSE – é só imprimir. Qual é o prazer de montar um álbum de aspirantes a mandato político, alguns que sequer são conhecidos? O mesmo que montar um álbum com jogadores do Irã, da Croácia, de Gana, dos quais também nunca ouvimos falar e cujos nomes nem aprenderemos a pronunciar. E assim como no meu álbum haverá gente que não será eleita, certamente a edição da Panini também tem jogadores que sequer constarão das listas de convocados pelas seleções de seus respectivos países.
Como marmanjos também fazem álbuns, a alternativa de colecionar candidatos pode ser mais divertida, sem dizer econômica, sobretudo diante da crise que atravessamos. E ainda tem a vantagem de conhecermos algumas “figurinhas” que disputam cargos políticos – algumas que acabarão sendo escolhidas por nós mesmos no dia 2 de outubro. Tanto nas eleições quanto na Copa de novembro/dezembro, vou torcer para o Brasil voltar a brilhar.

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