Crônica da semana por Nilton Morselli

Com que roupa?

Nem tenho roupa para ir à estreia do novo velho Cine São Pedro – inauguração de verdade, aquela que acontece quando está tudo pronto. Acompanhei com ansiedade todo o processo, desde a interdição em setembro de 2007, quando se paralisou a exibição da animação “Os Simpsons”.
Nem Barth e sua turma, que andaram fazendo premonições certeiras em alguns episódios, podiam imaginar o tanto que demoraria essa que foi a maior restauração da história da cidade. Mas não faz mal. A pressa é inimiga da perfeição – e, creio, também da prefeitura.
Pelo que a gente observa, a obra está ficando um primor, coisa de cinema, com o perdão do trocadilho. Tudo cuidado nos mínimos detalhes para que o prédio continue a emprestar um pouco de sua beleza ao centro da cidade, que anda tão carente de gentilezas arquitetônicas.
O fato de não ter virado igreja já é digno de Oscar. Nada contra templos religiosos, mas cada qual com o seu cada qual. Ali os louvores são para a arte – a sétima, as anteriores e as posteriores. Desrespeitar essa vocação seria um drama que jamais sairia de cartaz.
O prédio era particular, agora é público e está comprado, pago e reformado. Quem viveu os dias de glória do Cine São Pedro sabe da importância do momento que estamos prestes a viver. Quem já espetou o traseiro numa mola solta de poltrona chega a se emocionar vendo a lenta transformação. Até hoje posso sentir aquele cheirinho de mofo característico dos lugares em que não bate sol.
Ali sentado, pude me emocionar com o gesto humanitário empreendido pelo protagonista de “A Lista de Schindler”. Durante três horas, não desgrudei os olhos da tela até o Jack soltar a mão da Rose e ter o mesmo destino do “Titanic” – só mesmo James Cameron para atrair multidões ao cinema para ver um filme cujo final era conhecido desde 1912.
Como não me lembrar dos gritos da plateia assustada com os dinossauros da trilogia “Jurassic Park”? Ou das lágrimas derramadas nas cenas finais de “Ghost – Do Outro Lado da Vida”? Na minha cadeira cativa, torci pelo final feliz do pequeno Josué do premiado “Central do Brasil” e depois pelo Oscar que não veio.
Não tem a mínima ideia do que nos representa o Cine São Pedro quem não acompanhou, nas primeiras fileiras, a saga da família Trueba na linda adaptação do romance “A Casa dos Espíritos”, da chilena Isabel Allende. Nem pode imaginar o impacto provocado pelas peripécias amorosas e paternais de Roberto Benini neste expectador de “A Vida é Bela”.
Mesmo se o velho Pedro não voltar a ser cinema comercial, valerá a pena. Estará concluído o roteiro traçado pelo saudoso Guilherme Franco, quando na década de 1990 reabilitou um prédio decadente e devolveu aos taquaritinguenses o direito de ver bons filmes. Alguns remanescentes do Grupo da Praça certamente estarão lá para reverenciar a memória do arquiteto e agitador cultural que tão cedo nos deixou.
Na minha assiduidade semanal, quase sempre depois da missa de domingo, aquela sala de espetáculos foi como uma segunda casa. A duração de um filme, ao apagar das luzes, era um mergulho profundo num mundo de ficção, o suficiente para nos roubar um pouco da realidade às vezes angustiante. Por isso, aguardo com ansiedade a volta triunfal ao lugar em que fui feliz. Como diria Noel Rosa, com que roupa reviver tamanha felicidade?
***
Agora, um poema sem data e sem título que achei numa daquelas gavetas que a gente abre e reencontra a pessoa que foi um dia:

Na tela imensa do Cine São Pedro
Qualquer filme vale o passeio.
O cheiro cítrico da segunda, noite
de ingresso mais barato.
O olhar corre pela fila em busca
da moça mais bonita e mais sozinha.
Companhia aceita, felicidade completa.
A adolescência é mesmo é uma festa!
É só escolher um par de poltronas
Que não fure o traseiro
e um lugar com menos cheiro de mofo.
Parece mágica: a ficção é capaz de
tornar a vida mais leve.
Os beijos, às vezes reais, também.
Finda a sessão, a gente sai do cinema
mas o cinema não sai da gente.
Fica a doce sensação
de que o velho São Pedro
guarda para sempre a chave do meu coração.

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