Não, não sou a Iara
Há anos, muitos anos, procuram pela Iara. E essa busca incessante é justamente pelo meu celular. Já repeti nem sei quantas vezes que não sou ela, que deve ser um número parecido, que ela pode ser de outra região que não a 016. Como estou com o mesmo telefone há pelo menos duas décadas, existe a possibilidade de essa combinação de algarismos ter pertencido a ela.
Quando estou com tempo, pergunto se posso ajudar, mas os atendentes sempre respondem que são proibidos de dar informações para um desconhecido, que evidentemente não é a dita cuja. Essa bondade, claro, tem um pouco de segundas intenções. Se ela for localizada, talvez parem de me ligar.
Mas não sei se isso iria resolver o problema, porque telefonam de tantos lugares diferentes que, acredito, será impossível cessar as ligações. Bancos, lojas, serviços de cobrança, companhias de cartões de crédito, instituições solicitando auxílio financeiro e empresas de telefonia oferecendo planos de internet estão no rol dos que procuram por Iara.
Iara deve ser uma pessoa muito bem relacionada –talvez uma consumidora voraz, com uma voracidade inversamente proporcional ao seu hábito de cumprir os compromissos assumidos. Mesmo assim, ela ainda está exposta às tentações do mercado, sempre ávido por empurrar produtos e serviços, incluindo ofertas e mais ofertas de crédito para negativados.
O interessante é que eu, o verdadeiro dono do número, não sou tão assediado comercialmente quanto essa moça, o que é ótimo. Como não estava adiantando manter a seriedade, resolvi me divertir um pouco com a situação. Ao responder se a conhecia, disse que sim, que até sei o apelido dela, Mãe D’Água. Assegurei que a via uma vez quando fui para uma praia de Santos e tinha bebido um pouco. Não sei porque o rapaz interrompeu a conversa, sem dizer obrigado.
Em uma das mais recentes chamadas dirigidas a Iara, afirmei que sim, era eu, mas era “o Iara”, e não “a Iara”. – Consta aqui que Iara é do sexo feminino, advertiu-me a moça. – Sofri até bullying na escola por causa disso, emendei. A atendente pediu que eu dissesse o número do CPF. Falei que não lembrava. Ela desligou e, claro, deve ter falado um palavrão.
Ultimamente, Iara é alvo das malas diretas com promoções imperdíveis, via Whatsapp. Fiquei sabendo, por exemplo, que ela tem um desconto de 20% nas compras em uma loja de shopping de classe alta da capital paulista. A essa altura, Iara –esse ser sem sobrenome– já deve ter recuperado o crédito e a reputação de boa pagadora, com o nome lançado no Cadastro Positivo.
Desejo que a moça continue consumindo e fazendo girar a roda da economia nacional. Mas que consuma conscientemente, de modo a produzir menos lixo para o nosso planeta e mais raros telefonemas para mim. Boa sorte, Iara, do fundo do coração. Mas, por favor, leve o número do seu celular anotado num papelzinho.
(Imagem gerada por IA)












