Crônica da Semana por Nilton Morselli

A morte de um rio

Vejo um pescador no Ribeirãozinho. Homem de fé, penso. Que peixe pode dar ali? Me aproximo para puxar conversa. Está pegando? Pegando não, mas está puxando, ele responde. No linguajar dos pescadores, quer dizer que o peixe está mordendo a isca, mas não a ponto de se conseguir fisgá-lo no anzol.
Olho para baixo acompanhando os vários metros da linha afixada na ponta da vara. Nada mais que um fio de água passa por ali. Lentamente. Assim como deve ser a rotina daquele senhor que já desfruta da aposentadoria. Há bancos de areia espalhados pelo leito que, acredito, algum dia tenha sido fartamente povoado por bagres, cascudos e lambaris.
O velho homem diz que tirou muito lambari dali, mas hoje é um ou outro, e de vez em quando. Quando muito, não chega a encher meio embornal que carrega a tiracolo.
Ele conversa sem tirar o olho da ponta da vara, atento ao menor movimento que indique a presença do peixe. Me despeço para não atrapalhar e volto à caminhada pela avenida serpenteada pelo córrego que já deu nome à cidade.
Alguns passos depois me vem à mente a seguinte questão: o que causa a morte de um rio? Este pode ser o destino de todos os córregos que cortam cidades: ser esmagados pela civilização. Suas águas primeiro são contaminadas por detritos para depois serem reduzidas a um filete quase imperceptível.
A urbanização às vezes é tão cruel que chega a cobri-los de concreto e asfalto. São agora meros cursos d’água que correm nos subterrâneos das cidades. Os que continuam na superfície ainda tentam oferecer condições de sobrevivência para outras formas de vida, animal e vegetal.
O ocaso de um rio acontece sem que a maioria se dê conta. Só os pescadores o percebem, pois cada vez levam menos peixes para casa.
Triste isso. Até ontem meio ambiente era coisa de gente que não tinha o que fazer. Ainda existem os que pensam assim – e, pior ainda, há quem vote neles. Mas agora o assunto virou a maior das urgências, porque a natureza já apresentou a conta da insensatez.
A calha do Ribeirãozinho só se avoluma quando chove muito e as tubulações lhe deságuam a enxurrada coletada desde os altos da cidade. Então, ele deixa de ser fluvial para ser uma canaleta de água pluvial. Triste isso. Um rio condenado a ser um buraco de servidão.
Volta e meia, avista-se um gado pastando o capim que cresce onde deveria haver uma massa de água. De vez em quando é um cachorro ou um gato, e que precisam do resgate dos bombeiros.
Com menos frequência, um carro ou uma motocicleta mergulha rompendo a mureta de proteção ou saltando sobre ela. É um tombo de 8 a 10 metros, coisa de cinema.
Já houve também quem despencasse sem proteção alguma, a não ser a do anjo da guarda, como o bêbedo e seu violão. O homem saiu ileso da queda na madrugada solitária, supostamente depois de uma serenata não correspondida. Só não recuperou o instrumento, que ficou em cacos.
A cena do pescador, por sua vez, é cada vez mais rara. É um ser absorto e insensível ao barulho dos carros que passam pela avenida. O ruído de motores e buzinas não espantaria os também raros peixes?
Com suas muralhas de pedra, construídas nos anos 1970 para conter enchentes, o Ribeirãozinho está ali, impávido, desde antes da formação da cidade. É um agonizante em busca de sua última foz, algo que justifique um impulso irrefreável. Mas agora lhe falta a água. E faltando a água, lhe falta a vida.
Um rio morre simplesmente porque suas nascentes não são preservadas. Afinal, é nelas que brotam as águas. Quanto tempo mais para dizermos “ali passava um rio, mas ele está morto”?

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