Crônica da Semana por Nilton Morselli

Jargões


Filho de jornalista está proibido de passar perto de matagal. Afinal de contas, matagal está cheio de bandidos. Aliás, bandidos não, meliantes. É para lá que seus pais mandam todos os que a polícia não consegue prender. Fugir para o matagal é um vício de linguagem incorporado ao texto jornalístico, invariavelmente poluído com dezenas de outras expressões não lapidadas na correria das redações. Repórteres do rádio interiorano, que têm menos tempo ainda, são os mais atacados pela fúria dos clichês do vocabulário.
Sempre se ouve por aí que a vítima foi assassinada com “requintes de crueldade”, que é uma forma de dizer que a morte foi precedida de muito sofrimento. Ainda por cima, o coitado só foi localizado quando o cadáver estava em “adiantado estado de decomposição”. Em todos os casos que se conhece “a perícia esteve no local”.
Às vezes, quando leio ou ouço que “foi registrado” um “encontro de cadáver”, tenho a súbita sensação de que uma associação de necrólatras promoveu mais uma edição do Encontro Nacional de Cadáveres. Confesso que leva alguns segundos (ou minutos, que meus neurônios não são lá essas coisas) para eu perceber que é um fato policial e não uma festa estranha.
O roubo e o furto também possuem seus lugares-comuns e suas frases feitas. Quando os ladrões (atenção para as variações: “larápios”, “elementos”, “gatunos”, “amigos do alheio”) não são “presos em flagrante delito”, ao leitor sempre é esclarecido que “a polícia realizou buscas, mas infelizmente não logrou êxito”. Os soldados recuperaram apenas alguns objetos em um “terreno baldio”, mesmo porque sempre tem algum por perto, pronto para esconder o “produto de furto”. As expressões da linguagem policial pulam diretamente para o texto, escrito ou falado.
Os repórteres invariavelmente informam que os integrantes da quadrilha estão “fortemente armados”, mesmo que no fim seja apenas com uma “arma branca”. O que não é problema porque sempre se monta “um grande aparato policial” para “desbaratar” o bando. Mas sempre algum espertinho consegue “furar o bloqueio” e ir sabe para onde? Acertou. Para o matagal.
Todos os dias algum casal chega “às vias de fato” por “motivos fúteis”. Quando a coisa é feia mesmo, o jornalista não hesita em detalhar que um dos cônjuges “veio a óbito ao dar entrada no pronto-socorro”, ainda com a televisão de 29 polegadas, tela plana, da marca Phillips enfiada na cabeça (a descrição do aparelho nunca falta).
Felizmente, quando é só uma “desinteligência”, um “desentendimento”, enfim, uma briguinha à toa, não tenha dúvida de que “com a chegada da viatura, os ânimos foram serenados”, evitando-se a perda de um “ente querido”. Perceba: ente e querido são dois termos que se atraem, dentro do noticiário ou na fala cotidiana.
Os veículos envolvidos em desastre sofrem danos de grande ou pequena “monta”, dos quais depende o estado de saúde dos ocupantes, identificados como vítimas “leves”, “graves” ou “fatais”. Incrível mesmo é que as vítimas de acidente nunca morrem, somente, mas “perdem a vida”, um eufemismo cheio de condolências.
Bem, deve ter faltado algum jargão de que não me lembrei agora. Mas o objetivo dessa crônica já foi alcançado: fazer um alerta para que você nunca entre em um matagal, porque certamente ele está cheio de “meliantes” ou pior, de “elementos de alta periculosidade”. Pronto, não falta mais nenhum.

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