Crônica da Semana por Nilton Morselli

Linhas cruzadas

As regras da boa educação foram alteradas com sucesso. A locução adverbial de afirmação “com sucesso”, nesse caso, significa apenas que o objetivo foi alcançado, mas está longe ser algo positivo. No centro da mudança está o celular, onipresente e sempre ao alcance das mãos.

Lá nos anos noventa, quando ele foi lançado no Brasil, já dava pinta de onde poderíamos chegar. Soava pedante o cara andar pela rua falando ao telefone, desconfiava-se que até onde não havia sinal. Era esnobe mostrar que se tinha um Startac dobrável ou mesmo um tijolão, que custava metade do preço.

Fazer ou receber uma ligação na rua era prova de uma educação duvidosa, mas ora essa, foi para isso mesmo que o aparelho fora inventado – para falar em casa, já existia o fixo. Mas confesso que, nas raras vezes que tive de usar o celular na rua, ia para um lugar em que ninguém pudesse me ouvir para não atrapalhar ninguém.

Mas estamos no Brasil. No Japão, antes ou depois da chegada dessa nova tecnologia de comunicação, as pessoas não a utilizam na rua. Não que seja proibido falar em local público, é porque representa falta de urbanidade, assim como jogar lixo em local impróprio.

A popularização do smartphone transformou em coisa banal conversar e até gesticular pendurado no telefone, esteja em uma sala de espera ou dentro do ônibus. E você já percebeu como as pessoas geralmente sobem um tom na voz quando atendem a um telefonema? O normal seria abaixar um tom.

Se isso já não era bom, o pior estava por vir. Se tem uma coisa que me irrita é a pessoa interromper duas, três vezes um bate-papo presencial para atender ou fazer uma ligação. Eu juro: seja quem for, fecho a carranca, encerro a conversa e saio. Faço o mesmo com quem fica rolando o feed da rede social fazendo de conta que está prestando atenção no assunto. Com todo o respeito, quero que vá àquele lugar.

Muitas vezes você está tratando de assuntos sérios (futebol, por exemplo) e o interlocutor corta para atender a uma ligação qualquer. Há regras de etiqueta para isso, e não sou eu quem vai ficar ensinando, ainda mais numa coluna de jornal.

Só uma dica: a conversa olho no olho é sempre a mais importante, porque a ligação você pode retornar, e não é sempre que se recebe uma chamada do Papa Francisco ou do padre João Francisco.

Por falar em santidades, há quem olhe o celular na missa! E teve o caso da mulher que atendeu a uma chamada durante uma audiência judicial. O juiz olhou fixamente para a mulher e, ironicamente, pediu que mandasse um abraço. Como a testemunha não desligava, o magistrado avisou: se a senhora não interromper agora essa conversa, vou te dar voz de prisão.

Tem ainda aqueles que ficam ouvindo e gravando áudios para mandar no WhatsApp, ignorando a presença do interlocutor. E esticam o braço com a palma da mão aberta, o que significa que é para pararmos de falar porque vossa majestade está gravando um áudio. PQP! É aí que eu falo mais alto, que é para estragar a gravação. É uma pequena desforra, porque os educados também sabem se vingar.

Como é injusto generalizar, há um grupo minoritário que sabe usar o serviço móvel com elegância. Mas essas pessoas estão cada vez mais raras. A impressão que fica é que o sujeito compra um Samsung em dez prestações e vira megaempresário, sempre à espera de uma ligação para fechar um negócio milionário, de vida ou morte.

Há seis meses meu telefone não emite barulho algum. Nem unzinho. Adquirir outro aparelho, em doze vezes no cartão de crédito, está fora de cogitação. Reconquistei uma paz que perdi havia anos, e talvez tenha me livrado de me tornar aos poucos um ser humano igual aos novos seres digitais que passaram a coabitar o planeta – aqueles que não acreditam que exista vida fora do tela.

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