Crônica da semana por Nilton Morselli

Minhas duas caras

Na vasta lista de xingamentos disponíveis na língua portuguesa e que podem ser dirigidos a um desafeto, existe a expressão “duas caras”. Significa que a pessoa age com falsidade. Dentro de um contexto, ela é ofensiva. Mas, num aspecto geral, todos nós vivemos essa dualidade de alguma forma, sem que necessariamente isso soe negativo.

Você já parou para pensar que o mundo do trabalho é um excelente campo para exercitarmos um personagem? A partir do momento em que vestimos o uniforme, que pode estar subentendido numa gravata ou nas camisas de sempre, nos transformamos em outra pessoa. E nem sempre isso acontece de caso pensado.

Por ser o nosso ganha pão, o local de trabalho é onde damos o nosso melhor, com a seriedade que os negócios exigem. Se eu aplicasse, nos demais assuntos cotidianos, metade do vigor que apresento no meu emprego, não haveria energia suficiente para tudo. Um psicólogo diria que uma divisão desse gás seria o ideal, mas da teoria à prática há um fosso. Concluí que vivo um personagem. O eu de verdade certamente é o outro, que demora uma semana para pegar a escada e trocar a lâmpada queimada.

O vendedor da loja de roupas é um caso clássico. Outro dia fui recebido e atendido com muita atenção. Simpática e solícita, a moça dizia que todas as roupas ficaram ótimas em mim, mesmo o espelho me dizendo o contrário. Comprei algumas peças e ganhei a gentileza de ser acompanhado até a porta. Dois dias depois, quando a encontrei na rua, nem meu bom dia ela respondeu.

Quem já assistiu a um júri popular pôde ver o desempenho de um advogado defendendo a inocência do réu. Alguns profissionais teatralizam a situação para convencer os jurados, cena digna de fazer inveja a um ator de novelas. A par das alegações que o nobre causídico bota no papel para derrubar as provas da Promotoria, a forma com que conduz a defesa oral é determinante para obter a absolvição. Na vida civil, ele não precisa fazer esforços de encenação.

A política – um trabalho como outro qualquer – também tem seus ótimos intérpretes. Ou você acha que é normal alguém se deixar fotografar comendo frango e deixando a farofa cair nas calças? A jogada do governador devorando um pastel na feira também é manjada. Jânio Quadros sacava do bolso um pão com mortadela no meio de um comício para fingir simplicidade. Fora a divergência entre o discurso e a prática, entre as promessas de campanha e a realidade do mandato. Quase tudo é teatro.

O que podemos ver em público pouco ou nada condiz com a vida privada dos nossos mais legítimos representantes. Sem advogar pela causa de ninguém ou poupá-los de crítica à postura incoerente, que atire a primeira pedra quem faria diferente. A nossa versão verdadeira é aquela que adotamos quando ninguém está olhando. E não tem nada de ilícito aí, apenas nos despojamos dos personagens para sermos quem realmente somos. Há casos extremos, que são até patológicos. Com certeza você já ouviu falar de uma pessoa que é educada e risonha na rua e um ogro em casa.

Decididamente, não dá para viver o mesmo personagem em tempo integral. Mesmo porque é importante deixar os problemas do trabalho – e a postura que adotamos – no trabalho, de preferência trancados numa gaveta. Trazê-los na pasta ou no bolso do paletó é um erro que me ver com restrições o tal do home office. O aconchego do lar é onde vivemos a nossa identidade verdadeira, é o lugar em que o cliente nem sempre teria razão. Azar de quem não consegue sair do personagem. Em pouco tempo constatará que “quebrou a cara”. As duas.

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