Crônica da semana por Nilton Morselli

Homem primata

Entre as grandes notícias dos últimos dias, a reunião dos Titãs para alguns shows em capitais foi a que pela qual vibrei. Me fez voltar no tempo, quando ouvi o disco “Cabeça Dinossauro” pela primeira vez e peguei a capa, muito doida, nas mãos. No encarte, havia a letra de todas as músicas. Eu era ajudante de mecânico e já tinha ouvido algumas na FM Morada do Sol enquanto regulava um freio na oficina. A audição foi na casa dos irmãos Fanelli, que trabalhavam comigo, e haviam comprado o disco.

“Oncinha pintada, zebrinha listrada, coelhinho peludo, vão se f…” era uma frase diferente para uma música. Impactava, pois eu só tinha 11 anos. Não entendia bulhufas das mensagens que as canções queriam transmitir, mas a “Polícia” (“para quem precisa”) me fez refletir, e talvez tenha me introduzido em um mundo em que pensar é uma necessidade. Mesmo sabendo, pelo disco, que se podia ficar louco de tanto pensar, e rouco de tanto gritar…

Eis que em 1993, a Prefeitura contratou um show da banda. (Sim, no passado Taquaritinga já foi muito melhor nesse sentido.) A cidade e a região lotaram o recinto dos Pampas para prestigiar o espetáculo. Tive a oportunidade de ver de perto os caras – todos eles muito talentosos, como o tempo provou. E saber que Marcelo Fromer, que depois morreria atropelado por uma moto, tinha parentes em Taquaritinga e Jaboticabal. Os Titãs foram uma espécie de Roupa Nova do pop rock, uma entidade sagrada da música brasileira.

Isso já faz quase 30 anos. Naquela época, eu havia sido aprovado no vestibular, já tinha carteira assinada e, recém-chegado à maioridade, era editor-chefe de jornal. Você já deve ter ouvido ou feito a pergunta “onde você estará daqui a 10 anos?”. É uma grande bobagem. Se é difícil saber o que estaremos fazendo dentro de 10 dias, que dirá do intervalo de uma década? É tempo suficiente para acontecer muita coisa ou para não acontecer nada, e a gente permanecer no mesmo lugar.

São tantas variáveis envolvidas que prever o próprio futuro é mais uma questão de desejo. Por mais que você seja bom de planejamento, o tal do destino sempre mete o bedelho. Uma paixão no meio pode mudar tudo. Uma desilusão também, para o bem ou para o mal. Saber que tudo é questão de como conduzimos o troço é o que torna a vida saborosa. Um pouco de sorte também ajuda, porque conheço uns aí que, olha, se visitarem o Saara é bem capaz de chover seis meses sem parar. Se bem que outros deram sopa para o azar com prato fundo e depois foram obrigados a lavar a louça toda.

Li uma vez em alguma revista que mudamos nossos planos de vida três vezes ao longo de nossa existência. Mudanças radicais. É uma média, evidentemente. As alterações de rota podem ser bem mais frequentes caso consideremos, isoladamente, algumas variáveis, como o emprego. O trabalho, aliás, é o maior fator determinante de nosso padrão – econômico e comportamental. Por ele, até trocamos de cidade, região ou país.

Você já pensou como seria sua vida se, em vez de padeiro, advogado, bicheiro, engenheiro ou encanador, tivesse escolhido ser médico, béque central, jornalista ou caixa de supermercado? Em Guadalajara, porque conheceu uma mexicana e decidiu morar no país dela. Seus filhos talvez não fossem exatamente esses que você ama tanto. Seriam mais bonitos, ou não. Mais inteligentes, ou não. Mas você os amaria de qualquer jeito. Ou não.

Mas o que isso tem a ver com os Titãs? É porque desde a época em que me tornei fã de suas músicas, já se passaram três décadas. Daria para me perguntar três vezes onde eu estaria ou gostaria de estar no prazo de 10 anos. Lembro que na época, o plano era ter a minha oficina de caminhões. Mas eis que o jornalismo cruzou o meu caminho. Não me pergunte se voltei a me questionar sobre o futuro, se não quer que eu ensope esse teclado e ele pare de funcionar. Alguém tem um lencinho de papel aí?

Mas seria injusto comigo mesmo se reclamasse. Não reclamo, ao contrário, muito me orgulho dessa trajetória, que foi um pouco sofrida, o que só me fortaleceu as pernas. Como diria o Analista de Bagé, sou estoico barbaridade. De joelhos, só para Deus. Diante dos problemas, sempre em pé. O homem primata aqui agora entende as músicas da banda paulistana e, com o tempo, está aprendendo a refletir, muitas vezes em voz alta porque sou descendente de italiano, catzo. Mesmo sabendo, pelo disco de 1986, que se podia ficar louco de tanto pensar, e rouco de tanto gritar… AA UU.

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