Crônica da semana por Nilton Morselli

Reencantamento

As lendas indígenas que lia quando era criança introduziram-me em um mundo onde o homem está para a natureza assim como ambos estão para o místico. Se me lembro bem, a primeira vitória-régia nasceu nas águas do rio que afogaram uma jovem e bela nativa. Após nascer, um curumim tornou-se uma grande cobra por força de uma maldição lançada pela Lua (ou teria sido por um cacique?). O que interessa é que as coisas encantadas sempre estiveram presentes nas civilizações antigas e chegaram até nós por meio de doutrinas instituídas ou simples superstições.
No ensaio “Perto da magia, longe da política”, o antropólogo Reginaldo Prandi afirma que não se confirmaram as previsões segundo as quais no século 20 a razão sobrepujaria a religião. Desde o seu início anunciava-se a hegemonia da ciência e de formas de explicações do mundo inteiramente desencantadas, já desprovidas da necessidade de apelo à magia, ao sobrenatural, às explicações que escapam ao controle racional.
Já faz mais de duas décadas que pulamos de milênio – uma virada radical para nós, testemunhas de dois séculos – e o mundo ainda sofre com doenças endêmicas e, recentemente, pandêmicas. O esforço dos cientistas sociais e dos pensadores e executores da política não foi suficientemente capaz de desenvolver fórmulas para varrer o desemprego e a violência, por exemplo. Apesar de tantos anos de raciocínio, ciência e pesquisa, parte da população mundial continua sem saúde, educação, casa própria, e a outra parte pagando muito caro por isso.
Embora a ala progressista da CNBB tenha um dia tomado a cruz dos excluídos, preocupada em livrar o pobre do tacão do rico, não foi por isso necessariamente que a fé aflorou. A doutrina da Igreja Católica no Brasil ganhou um impulso graças ao Movimento de Renovação Carismática. Enquanto a “esquerda de batina” cumpria o justo papel de vestir a camisa dos sem-terra, dos sem-teto, dos sem-nada, os carismáticos erguiam as bandeiras de uma fé mais entusiasmada, assim como já faziam os evangélicos. Enfim, houve um bom equilíbrio entre a realidade mundana e o sagrado.
Foi no século passado que Millôr Fernandes escreveu: “Se Deus me ajudar, eu ainda provo que Ele não existe”. Na ironia da frase há uma dose homeopática daquilo que os cientistas sociais previram, mas não viveram tempo suficiente para provar, ou antes, dar a mão à palmatória. Os problemas não resolvidos pela razão acabaram dando força para a religião. E também para a proliferação de seitas com seus milagres à granel e a adesão maciça a elas, que não se furtam da oportunidade da doutrinação política.
Talvez o século 20 tenha provocado prognósticos mais ousados por ser vizinho do terceiro milênio – e sempre queremos fazer bonito para o vizinho. O surgimento da internet e o avanço da informática e sua utilização em todos os setores da humanidade marcaram pontos para o pensamento lógico, mas essa tentativa de desencantamento não deve ir tão longe. Durará até o dia em que céu criar a própria home page.

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