É a musa que dá brilho ao verso
Dizem que Deus criou o mundo em seis dias, mas a poesia? Essa certamente nasceu no sétimo, logo após o primeiro olhar de um homem para uma mulher, antes portanto da metáfora da maçã. Se pararmos para analisar a história da humanidade, com a devida vênia aos céticos, chegaremos à conclusão inevitável: a poesia só existe porque elas existem. Sem a presença feminina, o dicionário seria apenas um depósito frio de palavras úteis, e não esse arsenal de munição sentimental que carregamos no peito.
Desde os tempos em que Dante atravessou o inferno apenas para vislumbrar os olhos de Beatriz, ou quando Petrarca imortalizou Laura em cada soneto, a regra ficou clara. Até gigantes como Neruda, com seus versos telúricos, ou Camões, perdido entre o desconcerto do mundo e o fogo que arde sem se ver, sabiam que a caneta é guiada por uma mão, mas o papel é preenchido por um rosto, um perfume, uma ausência.
Do Olimpo ao guardanapo, a poesia é democrática. Ela habita as obras-primas dos profissionais da métrica —aqueles que esculpem sílabas milimetricamente contadas como se lapidassem diamantes— mas também sobrevive nos arremedos dos amadores. Corações tocados podem se revelar em versos imortais ou em arabescos de linguagem.
Há algo de profundamente sagrado no homem que, sem dom algum, tenta rimar. Ele supre a falta de talento com a abundância do sentir. É o poeta de ocasião, que não quer prêmios ou a aceitação do mercado literário, quer apenas o sim de sua amada. Para esses, não importa se a rima é “pobre” ou se a métrica é manca. O que vale é a urgência de expressar o que transborda de sua alma.
Nós, os poetas de ocasião, já rimamos “paixão” com “coração” e “amor” com “dor” um milhão de vezes. E sabe de uma coisa? Continuaremos rimando. Porque a poesia também é o refúgio dos que sofrem, dos que sentem o peito apertar e precisam colocar essa agonia em algum lugar que não seja o silêncio.
Vale até acróstico. Muitas vezes desprezados pelos literatos como um gênero menor, eles são, na verdade, provas de esforço intelectual. Ver o nome dela escrito na vertical, letra por letra, é um exercício de devoção que nenhum verso livre consegue desmerecer. Convencem mais pela boa vontade do que pelo valor artístico.
Quantas quadras não foram escritas à mão em mesas de bar, entre um gole de coragem e um suspiro? Versos rabiscados em guardanapos de papel, enrolados apressadamente no caule de uma rosa roubada de algum jardim alheio. A poesia é esse gesto de entregar o coração no portão, no meio da madrugada, torcendo para que a rima capenga seja lida com os olhos da alma.
Seja no rigor do soneto ou nos versos livres, leves e soltos que voam como o cabelo dela ao vento, a motivação é a mesma. Nós, homens, só viramos poetas porque elas nos obrigam a isso —não por decreto, mas por existência. Elas nos forçam a buscar palavras que não conhecemos para explicar sentimentos que não controlamos.
“A poesia é o eco da melodia do universo no coração dos homens, mas a mulher é a regente dessa orquestra”, teria dito o Nobel Rabindranath Tagore (1861-1941). Quem ousa discordar do nobre poeta indiano? Mesmo porque, as melhores poesias são, foram e sempre serão inspiradas nelas. Os versos até poderiam existir num mundo sem mulheres —seriam lógicos, precisos, talvez matematicamente perfeitos. Mas seriam opacos. Sem elas, a poesia seria como uma lâmpada apagada: teria a forma da luz, mas não teria o menor brilho.
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Feliz Dia da Mulher. E obrigado por ser inspiração ao amor –que alguns de nós fazemos por merecer.
(Imagem gerada por IA)










