Café antes do sol
Minha mãe deve ter sido feliz –feliz a seu modo, talvez. Um desses momentos certamente teve a ver com o fato de ter dado à luz um filho no Dia das Mães. O menino veio como presente, talvez o único que recebera naquele domingo de maio. Não que ela não tenha ficado exultante com o nascimento dos outros cinco, mas me refiro à coincidência de parir um bebê justamente nessa data especial.
Foi coincidência mesmo, porque a comemoração é móvel, e naquela época os partos eram normais. Recorria-se à cesariana apenas quando a espera da hora certa representasse algum risco para a mulher ou para a criança. Se fosse nos dias de hoje, o obstetra adiantaria o parto para o sábado, e que se danassem as conjunções zodiacais. Em vez da influência de Saturno, Mercúrio é que ditaria as regras. Meu amigo jornalista Hamilton Aiello diria que, embora o signo fosse o mesmo, o taurino não seria o mesmo.
Minha mãe partiu cedo, há quase 30 anos. O tempo, esse senhor implacável das distâncias, roubou-me a oportunidade de fazer a ela a pergunta mais essencial de todas: “Mãe, você foi feliz?”. (A resposta confirmaria ou refutaria a tese de Cazuza, segundo a qual só elas são felizes.) Faltou-nos tempo para que ela me contasse se conseguiu realizar seus sonhos antes que a doença a alcançasse, ou para travarmos diálogos mais profundos sobre as dores e as delícias da vida.
Sei, hoje, que essa falta –mais do que a influência dos astros ou o alinhamento dos planetas– alterou profundamente meu percurso. Conselhos que não tiveram tempo de ser dados, com certeza, teriam evitado certos percalços e suavizado as arestas do meu caminho. Naquela época, o jovem mal saído da juventude, o repórter em formação que ainda não sabia como entrevistar o próprio destino, não pôde fazer a dona Nadir as perguntas que ajudariam a descobrir com clareza, quem eu sou e quem, de fato, era aquela mulher para além da maternidade.
Entretanto, mesmo com o silêncio imposto pelo adeus precoce, agarrei-me ao pouco que hauri de suas entranhas durante os cafés compartilhados antes do nascer do sol. Foi desse legado silencioso e dessa herança de afeto que extraí a força para, entre erros e acertos, chegar até aqui, mesmo como um arremedo do que eu poderia ter sido.
Agora, a cada maio que se renova, o peso da ausência vai dando lugar a uma estranha forma de esperança. A sucessão de aniversários e o avançar do calendário não assustam quem aprendeu a conjugar o verbo esperançar. Pelo contrário, trazem-me a certeza de que estou ficando cada vez mais perto do nosso reencontro materno-filial. Um dia, finalmente, sentaremos sem pressa para continuar aquele café adiado, e todas as questões que ficaram suspensas no ar encontrarão, enfim, o seu lugar no tempo.
(Imagem gerada por IA)













