Por Marcus Rogério de Oliveira*
Queridos leitores, pensem numa criança aprendendo a andar. Ela experimenta, desequilibra-se, corrige o movimento e tenta novamente. Há algo profundamente humano nessa sucessão de descobertas. Pois a tecnologia acaba de dar um passo curioso: ensinar máquinas a experimentar o mundo antes mesmo de tocá-lo.
Nas últimas semanas, conversamos sobre a inteligência artificial saindo das telas, movimentando robôs e aproximando-se de nossas atividades cotidianas. Agora surge uma pergunta ainda mais provocativa: onde essas máquinas aprenderão a viver entre nós?
No dia 27 de outubro, o Google DeepMind apresentou o Genie 4, uma inteligência artificial capaz de criar ambientes virtuais interativos. São cenários que respondem às ações de quem os explora, com movimentos, sons e acontecimentos em tempo real. Pesquisadores investigam como esses mundos poderão ajudar a treinar agentes inteligentes e robôs.
Imagine um robô aprendendo a atravessar um depósito movimentado. Antes de enfrentar os obstáculos reais, ele poderia ensaiar situações simuladas: mudanças de percurso, imprevistos, decisões equivocadas. Cada tentativa produziria informações para aperfeiçoar seu comportamento. A tecnologia ainda é experimental; reproduzir fielmente a física e a complexidade do mundo continua sendo um desafio.
Na mesma semana, a chinesa AGIBOT apresentou o Worken, uma proposta para medir o trabalho efetivamente realizado pelos robôs. Mais importante que sua aparência é a capacidade de entregar resultados. Vejo aí duas peças de uma mesma história: aprender em mundos inventados e demonstrar valor no mundo concreto.
E aqui nasce uma oportunidade especialmente nossa. Por que esperar que alguém, distante daqui, ensine os robôs a reconhecer nossos caminhos, nossas máquinas, nossas culturas agrícolas e nossas formas de trabalhar?
Podemos desenvolver modelos virtuais inspirados nas fazendas da região, nos pátios das usinas, nas linhas de produção, nas ruas das cidades. Não seriam cenários genéricos, mas representações construídas a partir da nossa realidade. Criar experiências digitais para que inteligências artificiais aprendam com situações que têm a nossa identidade: uma colheita, uma inspeção industrial, uma operação logística, um serviço urbano.
Isso abre espaço para projetos locais, parcerias com empresas e novas competências profissionais. O conhecimento sobre a realidade regional tornar-se matéria-prima de soluções tecnológicas criadas aqui.
Na Fatec Taquaritinga, nossos cursos de tecnologia e engenharia, nossos estudantes e nossos projetos práticos encontram nessa perspectiva um campo fértil. Temos jovens capazes de modelar, testar e aperfeiçoar essas experiências. A aproximação com empresas e produtores transformam desafios cotidianos em pesquisa aplicada, aprendizado e desenvolvimento regional.
É fascinante quando entendemos que, antes de entrar em cena, as máquinas precisam aprender e ensaiar. Nenhum agente do mundo virtual conhece, sozinho, as necessidades da nossa terra. Essa parte do roteiro pertence a nós, daqui. E Taquaritinga talento para escrevê-la.
(Imagem gerada por IA)
*Marcus Rogério de Oliveira é um renomado professor da Fatec de Taquaritinga, onde leciona desde 1995. Com um extenso currículo acadêmico, é Doutor em Biotecnologia pela UFSCar, Mestre em Ciência da Computação pelo ICMC-USP e Bacharel em Ciência da Computação pela Unoeste. Sua vasta experiência o tem levado a atuar em áreas como Banco de Dados, Desenvolvimento de Sistemas, Engenharia de Dados e Ciência de Dados.












