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Fatec de Taquaritinga desenvolve metodologia inovadora para avaliação de calçadas com imagens satelitais e georreferenciadas

Taquaritinga é uma cidade localizada no centro do estado de São Paulo, com cerca de 58 mil habitantes. A localidade conta com uma unidade do Centro (estadual) Paula Souza, a Faculdade de Tecnologia de Taquaritinga (Fatec), onde trabalha o professor Gilberto Aparecido Rodrigues.

Graduado e mestre em Zootecnia, com doutorado em Agronomia, Rodrigues é professor do Curso Superior de Agronegócio. Com sua extensa e densa formação, Gilberto Rodrigues lecionava e trabalhava para a formação de especialistas na gestão de propriedades rurais. E circulava por Taquaritinga e pela região de Jaboticabal, onde reside, sem prestar muita atenção às condições de calçadas e das rampas de acessibilidade.

A “ficha caiu” quando ele teve que acompanhar uma pessoa que havia perdido a mobilidade e enfrentava muitas dificuldades para circular em cadeiras de rodas. Da constatação, nasceu uma ideia…

Rodrigues já vinha trabalhando com imagens captadas por satélites para estudar a arborização das cidades quando teve a ideia de usar essas ferramentas para ver e avaliar as condições de acessibilidade e caminhabilidade nas cidades. Para isso, optou pelas ferramentas do Google Earth Pro, por sua leveza e facilidade de acesso.

“O uso dessa tecnologia se mostra muito prático e econômico para a gestão adequada das condições de circulação nas cidades. Nós poderíamos usar outros programas mais sofisticados, mas o acesso, a operação e a própria difusão das informações ficariam mais limitadas. Além disso, as imagens são atualizadas a cada ano, o que permite um acompanhamento da evolução em cada rua das cidades”, justifica Rodrigues.

Após alguns testes, comparando as imagens obtidas com visitas aos locais, o pesquisador decidiu elaborar uma escala de avaliação dos vários tipos de pisos e rampas por onde caminham os moradores de Taquaritinga, especialmente as pessoas com deficiência. Reuniu um grupo de pessoas que tinham alguma restrição física, visual ou intelectual e organizou visitas físicas aos locais e reuniões de análise das imagens obtidas via Google.

“Eu não me sentia à vontade para julgar o que seria melhor para pessoas com deficiência e por isso recorri ao grupo de colaboradores que enfrentavam essas dificuldades nas ruas”, explica o professor. Com base nessa análise e em experiências similares realizadas em outros países, o pesquisador aplicou a tradicional escala de Likert (onde 1 é péssimo e 5 é excelente) para estabelecer um parâmetro de medição das condições de acessibilidade. Os participantes preencheram formulários com suas respectivas notas, totalizando 50 locais avaliados.

As avaliações foram realizadas no final de 2022 e início de 2023, sobre os três tipos de pavimento usados nas calçadas da cidade: concreto usinado alisado, pedra lisa associada a gramado, e lajota sextavada de concreto. Os melhores resultados positivos (70%) foram detectados nas calçadas de concreto alisado. Os piores, com blocos de concreto sextavados e calçadas com pedras lisas entremeadas com grama. Rampas de acessibilidade também foram analisadas em relação à padronização, qualidade e conservação.

O trabalho reuniu também exemplos de outros pisos (granito, intertravado, mosaico português, mármore) encontrados nas imagens. E também analisou e criou padrões de avaliação para os defeitos encontrados nas calçadas, como buracos, fissuras, remendos, falta de tampas em caixas de inspeção e outros tópicos.

Esses resultados foram publicados em 2023 no trabalho “Percepção da pessoa com deficiência física em relação à qualidade dos espaços pedonais”, realizado por Rodrigues em parceria com a bióloga, pesquisadora e educadora Denise Aparecida Chiconato.

Definida essa “régua” de avaliação, Rodrigues voltou-se para as fotos do Google e passou a esquadrinhar, quadra a quadra, as ruas e calçadas de Taquaritinga. Os resultados mostraram calçadas e rampas mais adequadas no centro da cidade, ao passo que as condições pioravam gradativamente nos quadrantes um pouco mais afastados.

As análises foram estendidas para outros quadrantes da cidade e publicadas no artigo Pedestrian accessibility of the shopping center of the city of Taquaritinga para o Scientific Journal of Applied Social and Clinical Science.

Extratos desse levantamento também foram publicados na Revista Interface Tecnológica, da Fatec de Taquaritinga. Veja os links abaixo:

Avaliação da Acessibilidade – Trecho Pedonal Inferior – Corredor do Quadrante 1 – Taquaritinga, de Roberta Rodrigues de Souza, Gilberto Aparecido Rodrigues, Ubajara Cesare Mozart Proença

Avaliação Pedonal – Trecho Oeste – Corredor de Acessibilidade – Quadrante 2 – Taquaritinga, de Mirian Vitoria da Silva, Gilberto Aparecido Rodrigues, Ubajara Cesare Mozart Proença

Acessibilidade Pedonal – Trecho Inferior do 1º Quadrante – Taquaritinga, de Débora Caroline Lopes, Gilberto Aparecido Rodrigues, Carlos Pereira de Castro Filho.

Duas esquinas nas ruas de Taquaritinga: (A) Rua dos Domingues, com uma única e pequena rampa de acessibilidade, sem continuidade com o alinhamento das faixas de pedestres. (B) Rua Rui Barbosa, com postes e outros obstáculos que dificultam a passagem de cadeirantes. Imagens extraídas do trabalho Pedestrian accessibility of the shopping center of the city of Taquaritinga

 

Omissão do poder público

A Prefeitura local também já teve acesso à pesquisa e seus resultados, mas problemas políticos impediram um olhar mais atento da gestão municipal para a iniciativa e seus achados. Explica-se: em fevereiro de 2024 o prefeito foi afastado por improbidade administrativa, o vice renunciou, e o presidente da Câmara Municipal esquivou-se de assumir o cargo. Em abril, finalmente, a Câmara conseguiu eleger um vereador que aceitou ser prefeito e assumir as dificuldades herdadas de seu antecessor.

 

Busca de parcerias

Com a experiência ganha, Gilberto Rodrigues passou a “olhar” o panorama de acessibilidade em outros municípios da região, como Cândido Rodrigues, Ibitinga e Jaboticabal. “Sempre que possível, procuramos estabelecer parcerias com escolas de nível médio, de maneira a permitir que os jovens participem das avaliações e se apropriem da técnica.”

Agora, a equipe da Fatec de Taquaritinga busca parceiros para ampliar o experimento e levá-lo a outros municípios. Afinal, imagens de satélites e do Street View poderiam potencializar a fiscalização e conservação de todas as calçadas, faixas de pedestres, ciclovias e demais recursos de mobilidade urbana em quase todas as cidades brasileiras. Não é pouco.

A professora Luciana Ferrarezi, diretora da Faculdade, acredita que sua equipe de tecnologia da informação possa agregar mais um recurso de análise das imagens, talvez aplicando algoritmos de inteligência artificial para identificar falhas, obstáculos e ocupações indevidas de passeios públicos. Seria uma forma de automatizar essas avaliações com base nas imagens obtidas a cada período. No dia 22 de maio, a redação do Mobilize Brasil tentou contato via e-mail com a assessoria de imprensa do Google sobre a possibilidade de desenvolvimento de mais essa aplicação, mas ainda não houve retorno por parte da empresa.

Fonte: Portal Mobilize Brasil – Fotos: Reprodução/Google

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