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Por Nilton Morselli

 

A vida real continua

Terminadas as eleições de domingo, com a vitória do presidente Lula para um quarto e último mandato, não faltou quem fosse às redes sociais desfiar ressentimentos. Era gente dizendo que eleitores do PT deveriam ser demitidos, que iria fechar seus negócios e que ia embora do Brasil. Muita, mas muita gente escreveu recomendando que essa turma nem perdesse tempo de pedir, porque não ia mais ajudar fazendo doação de qualquer tipo, muito menos compraria rifa, sorvete ou pizza de campanha beneficente.

No calor dos acontecimentos, sobretudo em momentos de tristeza eleitoral, é normal para algumas pessoas partir para a crítica, a ofensa pessoal ou até mesmo coisa pior. Hoje, com as redes sociais à disposição, não há tempo para pensar. Depois vem o arrependimento. Com a cabeça mais fria, refletem sobre o que disseram ou fizeram. Mas, quando há crime tipificado, pode ser tarde, como é o caso das listas de comerciantes, profissionais liberais e prestadores de serviço que deveriam ser esquecidos, porque escolheram o 13. O Facebook deveria vir com alertas: fique longe se estiver nervoso; se beber não use.

Em tempos normais, depois de uma eleição, os vencedores iam à comemoração e os derrotados seguiam direto para a cama, que é lugar quente. Mas, em tempos de polarização, os perdedores correm para o embate, tentando reduzir a alegria alheia, como se fossem os donos da verdade, como se todos tivessem de votar no candidato que ele escolheu. Talvez não saibam, mas cada um é dono do seu título de eleitor.

Quem publicou que deixará de ajudar os pobres partiu do princípio de que é mais rico e de que todos os que votaram diferente são mais pobres. Isso não é só uma visão bastante estreita da sociedade, mas terrivelmente preconceituosa. Muitos, aliás, aproveitaram para mandar recados criminosos aos nordestinos, talvez por imaginar que o Nordeste seja uma região integralmente composta de pés rapados.

Esse comportamento é ainda mais revelador. A pessoa passa a considerar o eleitor adversário como inimigo, que não é digno de sua piedade seletiva. Trata a caridade como algo que deve ser dirigido apenas a quem pensa e age igual. Se isso não for contrário aos princípios cristãos, renuncio ao meu diploma de catequese e a todas as leituras da doutrina espírita.

Meus amigos, me desculpem por recorrer a um lugar comum: a vida dá voltas. Quem ajuda hoje amanhã certamente estará na condição de ajudado. E quem auxilia o irmão fazendo disso uma humilhação ou esperando palmas que suporte os reveses que não tardarão. É fácil, é só seguir a regra: faça o bem sem olhar a quem. Ajude primeiro, pergunte depois.

A democracia não é uma guerra em que um lado deve exterminar o outro, mas um pacto coletivo onde as diferenças precisam conviver sem retaliações ou embaraços. Apurados os votos e declarados os vitoriosos, é hora de recolher as armas do orgulho e permitir que os ânimos voltem à serenidade.

O país não fechou para balanço no dia seguinte à eleição. O abismo ou a terra prometida que você enxerga pode ser apenas uma visão falha da realidade. O candidato que você gosta pode não ser bom para mim e vice-versa. Esse é um dos princípios democráticos. O que interessa é que a vida real continua, e ela exige de nós empatia, trabalho e a convivência dos contrários. Temos de reaprender a desarmar o coração, seguir estendendo a mão ao vizinho –pense ele como pensar– e lembrar que o futuro que nos espera não admite ameaças e exige menos barulho e, principalmente, o cultivo diário da paz.

(Imagem gerada por IA)

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