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A paixão nos tempos de IA

Queria ter apenas dez por cento da autoestima do homem de Tocantins que viajou dois mil quilômetros para encontrar uma mulher que não existia. Se não fosse pedir muito, também queria um pouco da coragem que ele teve ao decidir largar tudo e ir ao encontro do seu amor. Só não deu certo por um motivo: a moça não era de carne e osso. Nem se pode dizer que ele deu com a cara na porta, porque sequer a porta existia.

As promessas de Jéssica Fazendeira eram atrativas: “Quero te bancar”, “essa fazenda vai ser sua”. A mineira virtual, moradora de uma Belo Horizonte imaginária, enganou um homem apaixonado, comprovando que o amor é cego de uma ingênua cegueira. Edimar Martins, de 49 anos, batia longos papos com a sua crush pela internet, sem imaginar que sua história ganharia o noticiário.

A crônica sobre a moderna arte de amar em tempos de pixels e algoritmos ganha novos contornos quando esbarramos na saga desse homem que confia no seu taco. O morador do Tocantins desafiou distâncias e a própria lógica. Empacotou suas expectativas, deixou a rotina para trás e cruzou estradas com destino à capital mineira, movido pela promessa de um amor e de um futuro bucólico ao lado de Jéssica Oliveira, a agrogirl das alterosas.

O detalhe cruel é que Jéssica não passa de uma belíssima criação sintética, gerada por inteligência artificial. A tecnologia avança a passos largos, refinando rostos simétricos, olhares profundos e cenários campestres com um realismo assustador. Hoje, os geradores de imagens e os chatbots de conversação criam personas digitais tão convincentes que conseguem preencher vazios afetivos profundos, construindo uma vitrine perfeita de carinho sob medida.

As promessas de Jéssica eram o bilhete premiado da utopia: uma moça bela e cheia de dinheiro. No calor do namoro EAD, essa modalidade de afeto mediada por telas e conexões instáveis, Edimar entregou-se à narrativa. Acabou protagonizando uma versão contemporânea e involuntária do clássico de Carlos Drummond de Andrade.

Se o poeta –esse sim mineiro de carne e osso– escreveu “Fazendeiro do Ar” em reverência à perda melancólica das terras e raízes de sua família, o tocantinense transformou-se em um verdadeiro fazendeiro do ar digital: herdou latifúndios de vento, pastagens de código-fonte e uma fortuna composta inteiramente por promessas binárias.

Não critiquemos Edimar. Quem, nos brilhantes anos de juventude, não foi exagerado e adorou um amor inventado, como cantou Cazuza? Quem não teve uma paixão não correspondida, aquelas de fazer o coração disparar? Quem nunca correu o risco de colher rosas em jardins alheios na madrugada para, no fim, não dar em nada? Um amor platônico por uma pessoa real ou por um ser virtual não é a mesma coisa?

A história que o país conheceu essa semana, e que agora ganha os registros policiais, serve de alerta doloroso para os cuidados que precisamos ter nos romances virtuais. Num mundo onde filtros embelezam rostos e softwares simulam personalidades inteiras, a ingenuidade custa caro. A ousadia de Edimar acabou em nada, deixando uma lição amparada na sabedoria popular: quando o milagre é demais, o santo deve mesmo desconfiar.

Foto: Ilustrativa/Gerada por IA

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