‘Década Contada’ põe o dedo em muitas feridas
Depois de um concorrido lançamento na capital paulista, Dimas Ramalho trouxe a lume para seus concidadãos o livro “Década Contada – ensaios e registros de um conselheiro”. O evento reuniu um público considerável para uma noite de quarta-feira, no Cine São Pedro, marcando a abertura da segunda edição da Feira Cultural de Taquaritinga.
Além de doar, ao Asilo São Vicente de Paulo, a renda dos exemplares vendidos, o conselheiro do Tribunal de Contas do Estado presenteou o público com valiosas reflexões acerca de assuntos que têm pautado a vida brasileira nos últimos tempos, aliás, a matéria-prima da obra, publicada pela Editora Foco.
Voltar à cidade em que nasceu é uma rotina de que Dimas não abre mão. No exercício diário da fiscalização financeira e administrativa dos mais de 600 municípios paulistas é que deve surgir a maioria dos temas de seus artigos. E, nos últimos dez anos, foram mais de uma centena, todos veiculados na grande imprensa.
Selecionar 50 textos para o livro deve ter levado o autor a um dilema –afinal, escolher é perder sempre. Já havia lido a maior parte dos artigos nos jornais e meios digitais, mas relê-los agora dá a dimensão da importância histórica dos assuntos abordados. Isso sem falar do charme, da formalidade e da perenidade insuperável que todo livro encerra.
Os ensaios são divididos em seis capítulos, conforme as áreas a que dizem respeito. O título do primeiro capítulo, “A democracia é inegociável”, já revela muito do caráter e do pensamento que Dimas vem transmitindo desde que lutou por restituir as liberdades que a ditadura militar subtraiu dos brasileiros que insistiam em ter suas vozes ouvidas e respeitadas.
Logo no segundo artigo – “O silêncio não é uma opção”, escrito em 2021 –, ele enfatiza que calar a boca já morreu. Em poucas linhas, com a clareza de um democrata vocacionado, explica o que foi o bolsonarismo: “O presidente escolhido por 57,8 milhões de brasileiros aproveitou a oportunidade que lhe foi dada para boicotar o sistema por dentro, defendendo um punhado de valores que são o avesso do que projetamos em nosso pacto social”.
Por muito mais, por apontar meios para estancar tantas fissuras sociais, a obra é de leitura obrigatória. O escritor aborda o infortúnio que as apostas online provocaram na vida de tanta gente; a presença cada vez maior de idosos na população e a necessidade de a sociedade aprender a valorizá-los; o combate à violência contra a mulher; as mudanças climáticas que já atingem o Brasil; a influência das redes sociais na dinâmica do sistema democrático; o aprimoramento do papel do TCE no bom uso do dinheiro público, entre outros assuntos.
Desde os tempos de deputado nos anos 1990, quando o conheci, Dimas Ramalho não é homem de meias palavras. “Década Contada” é mais uma prova disso, e deveria estar em todas as bibliotecas domésticas e escolares, porque suas pílulas de cidadania são aulas de como os homens públicos devem se comportar diante dos desafios que todo mandato impõe, independentemente da esfera de governo.
Foto: Editora Foco












