Velhos álbuns ilustram a História
Houve um tempo em que a imprensa publicava fotos antigas nas famosas edições especiais de aniversário de Taquaritinga, em agosto. Geralmente eram as mesmas, cópias das que foram ampliadas para uma exposição promovida pela Prefeitura no começo da década de 1990, com “instantâneas” encontradas em algum arquivo público. Era o que se tinha.
Mas isso mudou, graças às redes sociais e suas páginas dedicadas a postagens de pílulas da nossa História. Muitas imagens foram tiradas do baú de famílias e compartilhadas com pedidos para que alguém ajudasse a identificar pessoas, lugares, situações e datas. Sempre tem um ou outro, de RG mais gasto, para colaborar com a investigação. Os aficionados por antiguidades fazem a festa, copiando as fotos para seus acervos pessoais.
Na imprensa, é preciso fazer justiça com o Dr. Hamilton Aiello, desde sempre empenhado em levar para as páginas de seu jornal uma série de fotos históricas inéditas. “A fotografia, na minha modesta opinião, foi um dos maiores bens que a ciência nos ofereceu, ela vale mesmo por 1.000 palavras. O que não se pode esquecer é que são necessárias outras milhares de palavras, específicas, que demonstrem pesquisa e/ou conhecimento, as quais, aí sim, nos contarão a História”, escreveu o decano, que arremata: “A fotografia não é a História –ela Ilustra a História”.
Reinaldo Morano, que fotografava em seu estúdio dez de cada dez casais de noivos a partir dos anos 40 do século passado, também registrou muitas cenas urbanas de sua cidade natal. Mas é de seu irmão Silvio o registro de um grupo de torcedores que há sete décadas acompanhava um jogo na arquibancada do lendário Antônio Storti. Quem seria o menino, na altura de seus dez anos, que nos parece olhar espantado? Conquistou o sonho de ser jogador de futebol ou foi bancário, mestre de obra, representante comercial?
O velho que aparece na fotografia durante um elegante jantar do Clube Imperial certamente teria durado, sei lá, no máximo mais uns dez anos. E como se chama a mocinha de vestido rodado que atravessa a Campos Sales, na esquina com a General Osório, de braço dado com uma freira? Alguém explica a cena ou o motivo da fotografia? Estariam indo à Rua do Comércio comprar um metro de fazenda para levar à costureira ou apenas iam a uma sorveteria numa tarde de verão?
Quem teria sido o autor da fotografia sem identificação alguma que remente ao tempo em que Taquaritinga era a Capital Mundial do Tomate? A menina de sorriso triste seria filha de um produtor rural ou de um simples “boia fria”, um daqueles que aparecem ao fundo em plena colheita? Podemos imaginar que tenha ido embora para estudar ou se casou aqui mesmo e é mãe ou tia de alguém que está lendo esta crônica.
Mais de meio século antes da Jardineira da Tarde, um grupo de foliões parou para as lentes da Rolleiflex de Florisval Lui, num Carnaval sem modinhas viralizadas e esquecidas antes do fim da Quaresma. Era um tempo em que ainda existiam Pierrôs chorando pelo amor de Colombinas, mas também anjos, sereias e odaliscas. Todos podem, muito bem, ser nossos antepassados, que nos ensinaram a gostar de aglomerações felizes.

E a identidade da moça de corpo esguio que, em traje de piscina, sorri para a câmera? O que chama a atenção são os olhares e as expressões dos marmanjos, com se a cena fosse ensaiada para um comercial de TV. A foto diz muito, já que atrás deles lê-se a palavra “Homens”, indicando que o grupo estava na frente de um banheiro. É tanta informação nessa imagem que quase ninguém percebe as pernas de alguém deitado ao lado de uma toalha.
De quem teria partido a ideia, há quase cem anos, de reunir as primeiras telefonistas de Taquaritinga para um registro que se tornaria digno de figurar no nosso livro de História. Alice de Brito, Rosa Ramos, Venina Cunha, Iracema Carvalho e Adalba Verdério eram as responsáveis por fazer e receber ligações e transferi-las para os poucos terminais das famílias mais abastadas de então. Poderiam elas imaginar que 60 anos depois, haveria um aparelho portátil que, além de conectar pessoas rapidamente, registraria imagens?
Imagens que agora estão por toda parte, contadas em centenas, milhares, que são armazenadas em memórias digitais. Antes da era dos smartphones, não se gastava filme à toa, e não eram todos os que podiam ter uma câmera fotográfica. Era necessário preparar a cena e caprichar no foco para não perder a pose. É por isso que o acervo da Taquaritinga do século XX é invariavelmente composto por fotografias de eventos. Era raro alguém sair por aí fazendo fotojornalismo aleatório, mesmo porque a imprensa dependia da confecção de pesados clichês de chumbo para imprimir uma imagem no papel.
É por isso que não se encontra, por exemplo, o registro do desembarque dos primeiros italianos, da primeira leva de japoneses, que certamente chegaram de trem para aqui tentarem uma vida melhor. Nossos álbuns de família carecem de fotos espontâneas, assim como raramente apresentam descrições minimamente cuidadosas –quando muito, há datas manuscritas e já puídas pelo tempo.









