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O dedo médio da mão invisível do mercado

No meu primeiro e único ano do curso de economia, um professor vez ou outra dizia que o mercado é regido por uma mão invisível. É uma imagem bonita, até meio poética. O problema é que a dinâmica das relações comerciais quase sempre é parcial. Se você parar para prestar atenção no balcão do dia a dia, vai perceber que a mão não tem nada de invisível. Ela está bem ali, exposta, e geralmente disposta a passar os cinco dedos quando a gente menos espera.

A história é antiga. Vem lá da origem da palavra carcamano, daqueles mercadores de antigamente que, na hora de pesar a mercadoria, davam aquela forçadinha disfarçada com o polegar no prato da balança. O tempo passou, mas só mudaram a estratégia. Hoje, numas simples operações de compra e venda, o consumidor sai sorrindo, crente de que levou vantagem, sem se dar conta de que acabou de ser fragorosamente tungado. Já passei por isso muitas vezes.

A tal mão do mercado atua com precisão cirúrgica. Ela se esconde nas letras miúdas dos contratos, todas redigidas sob a milenar lei do mais forte. Quando o elo mais fraco da corrente finalmente relaxa, puf: o dedo médio entra em ação. “Ah, mas é a lei da oferta e da procura”, dizem os especialistas, justificando o preço que o comprador mais forte impõe. Não adianta espernear. Se chiar demais, a coisa piora.

É o reino do “gato por lebre”. Você compra uma coisa reluzente na tela do celular e recebe em casa algo tão bizarro que a única reação possível é pensar em chamar o Celso Russomanno. Para nos salvar dessa selva, inventaram o Código de Defesa do Consumidor. Bela iniciativa. O problema é que, na prática, o exemplar do CDC no balcão das lojas acabou ganhando o mesmo papel daquela Bíblia aberta sobre a mesinha da sala das nossas avós: fica lá, bonitão, mas ninguém lê.

Para ser justo com a história, o conceito da mão invisível nasceu para algo mais grandioso do que essas trapaças comezinhas do cotidiano. Surgiu há mais de 250 anos, quando Adam Smith resolveu teorizar sobre a autorregulação e a interferência natural da economia. Só que, de lá para cá, a expressão caiu na vida e virou um coringa sem vergonha, invocado para justificar muito mais do que o mero equilíbrio comercial.

O grande dilema da mão invisível é que ela tem anatomia própria –e o dedo médio é a parte mais ativa desse corpo. Ele sempre aparece na hora de fechar um negócio, garantindo que o lado mais fraco saia perdendo. E essa lógica implacável vale tanto para o trabalhador humilde que compromete a renda comprando um televisor em 24 prestações quanto para o agricultor negociando a venda de uma safra inteira com uma multinacional.

Quer um exemplo de como essa mão escolhe quando quer ser vista? Ela se manifesta com fúria contra o fim da escala 6×1. Nesse debate, a mão invisível subitamente cruza os braços e se recusa a agir, desacreditando até os estudos mais otimistas e bem-intencionados que um dia serviram de base para o pensamento liberal. Reduzir a jornada mantendo salários? “O mercado não aguenta!”, gritam os oráculos.

Vivemos, afinal, em uma era estranha. Critica-se ferrenhamente o benefício social que garante a comida no prato do pobre e mantém a criança na escola. Brada-se com ódio contra a Lei Rouanet, que tenta dar um fôlego à cultura nacional. O argumento, dito com o peito estufado, é sempre o mesmo: “Com essas mamatas, ninguém mais quer trabalhar!”.

Curiosamente, essa mesma gente não dá um pio sobre o sujeito que compra uma caminhonete zero quilômetro com isenção total de impostos usando o CNPJ do sítio da sogra. Para a grande empresa que obtém o perdão de dívidas bilionárias, o discurso muda de figura. Aí não é privilégio, não é mamata e muito menos intervenção indevida do Estado. Aí, segundo eles, é só uma “mãozinha” bem visível do governo. E a gente, mais uma vez, fica olhando para o dedo médio que nos ameaça a todo instante.

(Imagem gerada por IA)

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