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Fofoca evolutiva

Lembra quando a professora dizia, sempre que um boato rodava a sala, que fofoca era coisa feia? E os conselhos maternais para que não falássemos sobre a vida alheia. Esquece. A ciência acaba de provar que, graças à fofoca, não estamos mais andando por aí como hominídeos, caçando e fugindo de predadores. Ou seja, evoluímos ao exercitar uma das mais prazerosas atividades do cotidiano.

Até outro dia, achava que isso era um assunto menor, coisa que a gente tinha de falar com a mão na frente da boca. Mas foi o antropólogo e psicólogo evolucionista Robin Dunbar que apontou para o papel positivo da fofoca na sociedade. Para ele, a linguagem humana evoluiu para que as pessoas fofocassem. Posso até imaginar uma mulher das cavernas grunhindo para outra como aquela pele de mamute caíra mal para a uma terceira pessoa, evidentemente ausente no momento.

Mas não só a língua ferina que caracteriza uma fofoca. Quando falamos bem também estamos fazendo mexerico. Quem afirma é Nicole Hagen Hess, professora de antropologia evolucionista da Universidade Estadual de Washington. Ela vai além. Até mesmo quando elogiamos o sapato ou a camisa do amigo estamos fofocando.

Se a teoria de Nicole é assim abrangente, não creia que ela e o antropólogo britânico estão sozinhos ao elegerem o tema como objeto de estudo. Há inúmeros pesquisadores, no Brasil e pelo mundo afora, que escreveram teses a respeito dessa arte. Até mesmo as renomadas universidades Stanford e de Maryland conferiram certificados a alunos que elevaram a fofoca à categoria de estudo acadêmico.

E foi lá, nos bancos dessas universidades norte-americanas, que se concluiu que os fofoqueiros têm vantagens evolutivas sobre os seus pares. Então, da próxima vez que alguém jogar na sua cara a acusação de ser fofoqueiro(a) não se acanhe de lançar o eufemismo científico com chancela de doutorado: fofoqueiro, eu? Jamais! Apenas troco informações pessoais sobre terceiros ausentes.

A bisbilhotice não é somente uma arte, mas virou profissão com carteira assinada para muita gente da imprensa que se especializou em cuidar da vida alheia. Colunas e revistas inteiras se dedicam ao fuxico. Famosos tabloides internacionais de altíssima tiragem matam a curiosidade dos leitores. No Brasil, Nelson Rubens, o mais notório fofoqueiro midiático, eternizou o bordão: eu aumento, mas não invento.

Essa necessidade primitiva de monitorar a tribo é pura questão de sobrevivência disfarçada de entretenimento. Estudos da psicologia social mostram que o diz-que-me-diz atua como um poderoso mecanismo de controle social e regulação de grupos. Ao sabermos quem quebrou uma promessa ou quem agiu de má-fé, filtramos em quem podemos confiar sem precisarmos pagar o preço da experiência própria. A fofoca, portanto, cria laços, estabelece normas morais e funciona como uma espécie de sistema de avaliação.

Longe de ser um sinal de mesquinharia, compartilhar aquela informação estratégica sobre o vizinho ou o colega de trabalho é, cientificamente falando, puro instinto de preservação e fortalecimento de vínculos. Quer mais um dado resultante de pesquisa: o ser humano passa até 60% do tempo falando sobre terceiros. É por isso que quando alguém me pede segredo sobre um babado, respondo: se você, que é o dono do segredo, não conseguiu guardar, por que acha que vou conseguir?

Então, da próxima vez que sentir seus olhos brilhando ao ouvir um “você não sabe da última”, não sinta culpa. Celebre a sua herança adaptativa. A civilização foi moldada ao redor de fogueiras, onde a vida alheia sempre foi o prato principal. E sabe aquela professora do primeiro parágrafo? Duvido que ela não futricava com as colegas na hora do cafezinho do intervalo. E quantas vezes surpreendemos a nossa mãe falando dos maus costumes da cunhada?

(Imagem gerada por IA)

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