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A palavra multiuso

Poucas palavras na língua portuguesa são tão versáteis como máquina. Até alguns objetos e funções para os quais já existem substantivos mais ou menos específicos, às vezes chamamos de máquina –a de lavar roupa, a de lavar louça, a de tirar fotografia, a de moer carne, a de cortar e a de furar madeira e por aí vai.

Ao mesmo tempo em que existe o termo lavadora (de roupa, de pressão), a máquina de costura não é costuradora, assim como a de solda não soldadora e a de escrever não é datilografadora. Temos uma infinidade delas, todas fabricadas pela indústria de máquinas leves ou pesadas. Um parque fabril é composto por um conjunto de máquinas, que chamamos de maquinário.

Essa onipresença do termo acaba por revelar uma certa preguiça linguística, é verdade, mas também uma reverência ao que é funcional. O técnico de informática raramente diz que vai reparar o computador. Ele prefere o bom e velho “vou dar uma olhada para ver o que está acontecendo com a sua máquina”. É como se, ao reduzir o complexo ao essencial, déssemos a ele uma alma mecânica.

Até os computadores, em seu íntimo mais profundo, ignoram o português ou o inglês para se comunicarem através da linguagem de máquina, que no idioma informatiquês se chama linguagem binária.

Nossa fascinação pelo vocábulo transborda para o campo da admiração. Quando um carro corta a estrada com potência ou beleza, não o chamamos apenas de veículo, mas dizemos, com a boca cheia, que “aquele carro é uma máquina”. Aliás, carro em italiano é macchina.

Se um atleta corre sem cansar ou um colega de trabalho entrega relatórios em tempo recorde, o veredito é o mesmo: o sujeito é uma máquina. Aqui, o termo deixa de ser objeto para virar adjetivo de eficiência, de precisão, de algo que não falha, não para e não questiona.

O largo uso que fazemos do termo ajuda um estrangeiro a entender a nossa “inculta e bela”: a máquina de cartão (para os íntimos, maquininha) dispensa um nome próprio. A máquina de fumaça, a seu turno, cria o suspense antes da entrada do artista no palco. Já a máquina do tempo é o eterno sonho da ficção científica de voltar ou avançar os anos.

No entanto, o uso mais curioso –e talvez o mais desgastado– reside nos palácios de Brasília, das capitais e das prefeituras. Políticos e analistas enchem o peito para falar da máquina pública. Referem-se à estrutura administrativa, ao emaranhado de burocracias e processos que deveriam, teoricamente, fazer um país girar.

O problema é que, por trás dessas máquinas de sentido figurado, ainda residem as mãos muito humanas. E, ao contrário das máquinas de lavar que limpam a sujeira, a nossa “máquina administrativa” muitas vezes parece projetada para acumular detritos.

Pela qualidade de certos gestores que operam essas alavancas, talvez fosse o caso de levarmos o termo ao sentido literal. Quem sabe, em um futuro não tão distante, uma Inteligência Artificial –técnica, fria e estritamente lógica– possa assumir o comando. Uma entidade processual isenta de corrupção e da compra de votos, imune ao nepotismo e sem qualquer inclinação ao paternalismo ou ao personalismo messiânico.

Se a função da máquina é otimizar a vida do cidadão, talvez a solução para os nossos males sociais seja substituir essas superadas máquinas humanas, com suas engrenagens propositalmente emperradas, por um algoritmo programado para saber, de uma vez por todas, que o interesse público não aceita erro de processamento.

Foto: Reprodução/Filme Tempos Modernos

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