Até a música tem a sua cor preferida
Se você parar para pensar, vai notar que o mundo da música sofre de um daltonismo incurável, pendendo sempre para o mesmo lado do espectro, já que existem mais de uma centena de canções com a palavra azul no título, como se os compositores tivessem assinado um contrato de exclusividade com o firmamento.
Ou então com o mar, já que o azul na obra de Dorival Caymmi é fundamental, representando o mar, a fluidez, a Bahia e a paixão marinheira. Presente no imaginário dos seus relatos e canções, a cor simboliza a leveza, o “mar azul infinito” e o “búzio azul” do seu altar poético, frequentemente interpretado por seu filho Dori.
Mas a cor dos olhos de Chico Buarque também remete à melancolia. Não necessariamente àquela de quem perdeu a “Caneta azul, azul caneta” (Manoel Gomes), mas principalmente ao que se passa entre as mesas da “Boate Azul” (Joaquim & Manuel), provando que o azul serve tanto para o drama de boteco quanto para a caligrafia do destino.
Embora ela tenha uma infinidade de tons, é uma cor que não se decide: ora é o cenário de um “Dia Azul” (Xuxa) na pureza da infância, ora é o disfarce de um rockstar que se esconde “Behind Blue Eyes” (The Who), tentando convencer a plateia de que ninguém sabe o que é ser o homem mau por trás daqueles olhos claros.
E você pode ir seguindo esse rastro de tinta sonora, que certamente vai tropeçar em um “Blue Suede Shoes” (Elvis Presley) que ninguém pode pisar. Enquanto me lembro dessa, eis que a rádio Cidade me avisa que “Tudo que eu preciso é de um pouco de sorte e um violão, e todo azul do mar” (Flávio Venturini/14 Bis).
O azul musical é uma obsessão que não respeita fronteiras, indo do folk soturno de um “Famous Blue Raincoat” (Leonard Cohen) até a euforia eletrônica do Eiffel 65 com o seu “Blue (Da Ba Dee)”, onde o sujeito vive em um mundo tão azul que até o seu Corvette e as pessoas que ele vê ganham essa tonalidade que, certamente, é a preferida do Criador.
No Brasil do sertanejo, a coisa ganha contornos de urgência ecológica quando Chitãozinho & Xororó olham para o alto e percebem que o nosso “Planeta Azul” está ficando cinza, pedindo um socorro que nem a “Blue Moon” (dos Beatles) poderia iluminar sozinha em uma noite de solidão.
O engraçado é que o azul na música também pode funcionar como um convite para o desaparecimento temporário. É o que sugere o Skank no sucesso “Vamos fugir pra outro lugar, baby / vamos fugir, onde o azul é todo azul do mar”. Não sei você, mas eu já vou arrumando as malas mentalmente.
A cor também vira um refúgio místico na voz da Enya em “Caribbean Blue”, ou uma explosão de felicidade sertaneja quando Edson & Hudson cantam que “Tudo é azul, tudo é amor”. Foram eles mesmos que descobriram que certos relacionamentos têm cor: “E esse amor é azul, como o mar é azul / azul como a estrela do meu coração / uma estrela azul que me enche de amor”.
É claro que o rei não fica de fora do rol dos artistas cuja predileção pelo azul é famosa. Essa é a cor icônica na carreira e no guarda-roupa de Roberto Carlos, representando calma, esperança e um estilo pessoal marcante. A onipresente cor primária foi celebrada por ele em “Vesti azul” (“Me apareceu um brotinho lindo / que me convenceu… / Dizendo que eu devia vestir azul / que azul é cor do céu / e seu olhar também”).
No início da carreira, Roberto também fez sucesso com “Olhos azuis” (“Nos olhos teus quero olhar por toda a vida / nos olhos teus vejo querer / nos olhos teus o azul que brilha / traz esperança ao meu viver”). Já com a carreira consolidada, mandou essa em italiano: “Um gatto nel blu” (“Um gato no azul”).
Nossos poetas não deixaram por menos. Para citar só um exemplo, Olavo Bilac o encaixou até na letra do Hino à Bandeira (“Em teu seio formoso retratas / este céu de puríssimo azul / a verdura sem par destas matas / e o esplendor do Cruzeiro do Sul).
Já que o azul é a cor predominante na Terra, presente no mar e no céu, não é de se estranhar que a música se aproveite disso. Ela serve para a tristeza profunda do blues, para o sapato de camurça do rei do rock e para aquela boate que, de tão cantada nos churrascos e karaokês, acabou virando um hino.
(Imagem gerada por IA)













