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Vai um tomate aí?

Desde criança, aprendemos que tomate não é legume. É fruta, mas uma fruta que nasceu com tendência para ser legume, concluo agora. Porque o tratamos como tal: cortado em rodelas, vai para a salada e recebe limão, sal, azeite… A banana, a jabuticaba, a pitaia, a goiaba não têm a mesma sina. Da roça ao estômago, sua curta existência jamais é afrontada com temperos que lhes alteram a natureza doce.

Já com o pobre tomate a coisa é diferente. Não se sabe como isso começou, mas deve ter sido com alguém que teve a ideia de passar um salzinho para ver como é que ficava. Depois desse sacrilégio, o hábito se espalhou. E, através dos tempos, o fruto vermelho acabou virando molho de macarrão, em parceria quase obrigatória com o manjericão e uma ou outra folha de louro.

Por falar em pecado, fosse o Éden um pouco mais tropical, talvez Eva (influenciada pela serpente) tivesse oferecido a Adão um saboroso tomate-cereja. O destino da humanidade, imagino eu, teria tomado outro rumo. Diante da oferta, o primeiro homem provavelmente não morderia o fruto de imediato. Ele olharia para os lados, buscaria uma pedra de sal e, quem sabe, tivesse tempo para perceber as segundas intenções, o que evitaria a expulsão do Paraíso e todas as consequências para o resto da humanidade.

Enquanto a maçã nos deu o conhecimento do bem e do mal, o tomate nos daria a longevidade. Carregado de licopeno —esse antioxidante poderoso que combate o envelhecimento das células e protege o coração—, o “legume por opção” é um verdadeiro elixir. É ferro, é vitamina C, é potássio. Mesmo assim, o preconceito persiste: peça um suco de laranja e você é saudável. Peça um suco de tomate e olharão para você como se você também gostasse de, sei lá, creolina. Há quem torça o nariz para o Bloody Mary, esquecendo que ali, naquele copo, reside a essência de um alimento versátil.

Em Taquaritinga, esse tesouro rubro já reinou absoluto. O título de “Capital do Tomate” não era apenas marketing, era o pulsar da economia local, a partir da segunda metade do século XX. Infelizmente, o brilho se apagou entre o abuso de agrotóxicos e as mudanças no campo. A neantina, que prometia salvar a safra, acabou por intoxicar o sonho. O vermelho vibrante das plantações deu lugar ao laranja da citricultura e, por fim, ao verde monótono da cana-de-açúcar —essa planta pragmática que, embora doce, concentra renda e não admite crises de identidade: é combustível ou açúcar, e ponto final.

Ficaram as lembranças das indústrias que outrora processavam nossa fruta-coringa. O fechamento das fábricas deixou a cidade mais pobre, restando um vazio que os laranjais e muito menos os canaviais conseguiram preencher. Afinal, o tomate consegue transitar entre o rústico e o sofisticado com tamanha maestria. Alguém em sã consciência duvida do poder avassalador do trio tomate seco, rúcula e muçarela de búfala sobre uma massa generosamente lambuzada de, é claro, molho de tomate?

Se você perguntar para um tomate se ele prefere ser tratado como fruta ou como legume, certamente ele escolherá a segunda opção. (Não, eu não converso com tomates. Eles não falam com estranhos.) Pelo menos seu gênero estaria mais adequado ao uso culinário que se faz dele.

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