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A menina cresceu

É chegada a hora de reconhecer que a menina cresceu –a minha menina, que tantas vezes fiz adormecer nos meus braços antes de ir para o trabalho. Aquela que não chorou quando, aos seis meses, foi deixada pela primeira vez no berçário da creche. Aquela que vi dar os primeiros passos, que tinha cara de séria desde pequena, mas que ria das minhas brincadeiras bobas.

Cresceu a mocinha que não desperdiça palavras e às vezes parece mais madura que o pai. Por força das circunstâncias, acompanhei seu crescimento meio de longe e só às vezes de perto. Aquela por quem, em razão da distância contada em quilômetros, não pude cumprir toda a liturgia paterna. Tarefas simples, mas que fazem toda a diferença, como apanhá-la no portão da escola, não foram possíveis.

Já é moça aquela criança que, nos primeiros anos de colégio, já dava mostras de uma inteligência superior, sem que isso interferisse na sua maneira suave de tratar as coisas e as pessoas. Essa sensibilidade, marca de sua personalidade meio oriental, a fez amante das artes em geral e da natureza –dos bichos e das plantas em especial.

A tendência de cultivar a beleza de todas as formas de vida falou tão forte ao seu coração que ela elegeu o meio ambiente como objeto de estudo acadêmico. Em busca de seus objetivos, dedicou-se ao extremo e conseguiu aprovação nos mais concorridos vestibulares do país. Assim é que pôde escolher a Universidade de São Paulo como sua futura escola.

Confesso que só agora é que percebi, para valer, não só que ela cresceu, mas como ela cresceu! Antes mesmo de atingir a maioridade, demonstrou que já está pronta para o mundo, carregando tantas virtudes que tutelas constantes já não são necessárias.

Aquela menina de olhar sério transformou-se em uma mulher de convicções firmes, capaz de traçar o próprio destino com a mesma desenvoltura com que encarava a vida na infância. É raro ver tamanha responsabilidade e um engajamento tão profundo em tudo o que se propõe a fazer.

Meu ninho esteve vazio desde o momento em que deixei de compartilhar o mesmo teto com a Mariana, mas agora a despedida ganha um contorno particular. Vê-la partir para mais longe, rumo aos corredores da USP e aos desafios da vida universitária, traz uma sensação estranha –um misto de saudade antecipada com a certeza do dever cumprido. É o nó na garganta de quem entende que o pássaro não apenas aprendeu a voar, mas já escolheu o horizonte mais alto para explorar.

Sou um pai transbordando de orgulho ao vê-la conquistando seus espaços e dando passos tão largos rumo ao futuro. A distância, que outrora foi uma barreira para a nossa rotina, hoje é apenas o palco da sua vitória. Ficarei, como sempre, por aqui: um porto seguro e um espectador atento, rezando e torcendo para que as fronteiras se atenuem e que o mundo, com toda a sua imensidão, fique cada vez menor para o tamanho do talento de minha futura engenheira. Que Deus a abençoe nesta nova jornada.