O nosso amanhecer
Amanheceu em Taquaritinga. Acordei e foi a primeira frase que me surgiu na cabeça. Por que será? Amanhece todo dia, pensei, ao abrir a janela e perceber que seria mais um dia de chuva e que o galo ainda nem havia cantado, mesmo com a claridade que vagamente se pronunciava.
Deve ter sido uma daquelas coisas que a gente pensa quando acorda depois de um sonho que acredita ter acabado de acontecer. Ou porque o cérebro ainda está entre o sono e a vigília.
Nunca havia botado reparo no primeiro pensamento do dia, além da oração rápida, ainda espichado na cama. Desde criança, faço uma prece ao me deitar e ao me levantar. Creio que isso me fortalece para enfrentar os perrengues do cotidiano.
Nos últimos tempos, a primeira coisa que me vem à mente é: “preciso ir à academia”. Sim, o verbo é esse. Seria ótimo se não fosse, se meu subconsciente recorresse a verbos menos imperativos quando o assunto é exercício físico.
Quem enfrenta halteres e uma esteira antes de o sol nascer sabe que é uma luta de você contra você mesmo. Seu lado racional versus seu modo ancestral. Decididamente, um australopiteco não levantava com essa dúvida.
Amanheceu em Taquaritinga. A frase, mastigada entre um gole de café e a dor residual de um treino de pernas, revelou-se como um ultimato. Ali, recuperando o fôlego e a dignidade muscular, percebi que o pensamento matinal era o rascunho de uma crônica inteira.
Mas o dia, com seus corre-corres, atropela as intenções. Só agora, quando o sol se recolheu e a lembrança do compromisso de escrever me cobra o prometido, é que a frase volta a ecoar, ganhando o peso do silêncio que a noite impõe.
Pensei em evocar a memória de João Aiello e sua histórica coluna “Bom dia, Taquaritinga”. Havia naquela saudação de capa de jornal uma elegância que hoje nos falta, um modo de civilidade que reconhecia o vizinho antes de conferir a cotação do dólar.
Poderia me perder nas descrições das cores que o horizonte assume quando a luz decide beijar a terra, ou talvez me lançar em elucubrações sobre as perspectivas de cada jornada. Mas esse amanhecer, sinto agora, carrega uma conotação menos telúrica e muito mais metafórica: amanhecer é a forma que Deus nos empurra para a evolução.
Afinal, a mecânica celeste não escolhe favoritos, já que o dia raia em Tóquio, em Paris ou no sertão de Pernambuco com a mesma indiferença astronômica. Mas o coração é bairrista e seletivo. Tomando emprestada a lógica de Fernando Pessoa sobre o Tejo —que mais é belo, mas ao mesmo tempo não é mais belo que o rio que corre pela sua aldeia—, o amanhecer na cidade em que fincamos raízes é insuperável. Não pela geografia, mas pela familiaridade do ar que nos enche os pulmões.
É nesse palco conhecido que a vida se encena, sem ensaios. Mesmo quando o corpo implora por mais alguns minutos de sono e o espírito hesita diante do peso do mundo, o céu de Taquaritinga nos convoca. É preciso pular da cama, encarar a vida como ela é —com seus obstáculos que nos dobram os joelhos e suas delícias que nos mantêm em pé— e aceitar que, para cada perrengue, há sempre a promessa renovada de uma luz que, teimosa, insiste em se pronunciar.
(Imagem gerada por IA)













