Daqui não saio, daqui ninguém me tira
Gosto de Carnaval. Uma vez caí na besteira de viajar para a praia, talvez para afogar as mágoas do encerramento das atividades da sede social do Clube Imperial, onde vivia noites fantásticas a cada fevereiro. O destino escolhido –Matinhos, no Paraná– tinha Carnaval. Um caminhão de som, no mínimo três vezes maior que o nosso Batatão, percorria a orla da praia, mas ninguém dava bola.
Voltei para Taquaritinga com a sensação de ter decidido tirar um cochilo no sábado à noite e acordado na manhã de domingo, quando a gente percebe que perdeu uma festa esperada. Depois disso, nunca mais troquei o batuque pelas ondas. Afinal, Carnaval é naquele período específico do ano e o litoral está lá à nossa espera também nos outros 361 dias.
Me lembro de ter recusado todos os convites para participar de retiro espiritual. Sempre respondi com ironia exclamativa: poxa, justo no Carnaval! Mas, claro, sei que fazem nessa época justamente para tirar uma galera de circulação, porque Carnaval realmente não é um local apropriado para quem tem pouco juízo. Eu, que nunca fui dado a excessos, jamais tive problemas, mesmo quando chegava em casa quando o sol já começava a esquentar.
Mas nada como uma certa Quarta-Feira de Cinzas em que saí do Batatão e fui direto para o trabalho. O Edevídio Bussadore já havia aberto a porta da gráfica onde funcionava o Nosso Jornal. Ao me ver de bermuda, quis saber se eu ia trabalhar naqueles trajes. Disse que já havia deixado providencialmente uma calça na redação. “Mas você está em condições?”, retrucou. No meio da tarde, cumpridas as tarefas do dia, o sono enfim me pegou e rumei para casa. A juventude é mesmo uma festa.
Respeito quem não curte ou só curte ver desfile pela TV, o que não acho a menor graça. Prefiro me dar o prazer das ruas, afinal temos folia para todos os estilos: as noites são sacudidas pelo trio elétrico da Prefeitura, que alegra os foliões com variados ritmos brasileiros, enquanto a Jardineira da Tarde resgata a poesia das marchinhas e o colorido das fantasias. Há também os desfiles de blocos, que ainda pulsam porque a tradição se recusa a morrer, e a elegância comedida dos bailes de salão, mantida viva pelo Clube da Velha Guarda.
Meus amigos já nem me convidam para fazer programas diferentes durante os dias de Momo. Nem mesmo para a Bahia, com seus megablocos, me animo a ir. Que graça tem você olhar para o lado e não conhecer ninguém? A magia se dá quando você sai e vê fantasiado de pirata o colega que vive de uniforme, a moça que te atende na loja transformada em bailarina ou Mulher-Maravilha. Carnaval é coisa de gente feliz, é confraternização municipal, é abraçar quem você cruza quase diariamente e nunca trocou palavra, mas agora está cantando que cachaça vem do alambique e água vem do ribeirão. É por isso que, como diz a outra marchinha, daqui não saio, daqui ninguém me tira.
Sigo assim, devoto dessa catarse coletiva, devidamente embasado pelo nosso filósofo de todas as horas, Mário Sergio Cortella. Para ele, o Carnaval é uma pausa necessária para a sanidade mental. Em um mundo que, às vezes, é “doido” justamente por não parar nunca, a festa surge como o respiro essencial. É quando a rotina pede licença e a gente se permite ser apenas alegria, sem as amarras das obrigações que nos consomem nos outros meses.
A fórmula, eu sei, é manjada. As músicas são as mesmas de sempre e o cansaço é certo, mas quem gosta, gosta e acabou. Esperamos o ano inteiro por esses dias de suspensão da realidade, e eu faço parte desse grupo com muito orgulho. Enquanto tiver força nas pernas, estarei lá, mesmo se um dia o Carnaval se transformar em uma festa que apenas nos lembre de como ele já foi bom.
Foto: Nilton Morselli










