Reflexões e novos projetos
Se o fim do ano é tempo de reflexão, como se convencionou, o começo de um novo é tempo de organização, principalmente quanto ao planejamento da vida dentro deste ciclo que cabe apertado em longos doze meses. Confesso que não sou bom nisso, aliás, sou bom em tão pouca coisa que é melhor nem comentar.
Desde sempre ouvimos falar que é imprescindível anotar todos os projetos em uma caderneta. Não vale digitar em uma pasta do celular ou do computador, porque dizem que só dá certo se escrever de próprio punho. E boca-de-siri: não se deve revelar o conteúdo a ninguém para evitar olho gordo.
Pois há um componente de misticismo aí nesse negócio de planejar o ano fazendo anotações detalhadas, uma vez que o universo conspiraria para que o sonho se concretizasse. Também há quando usamos determinada cor na noite do Réveillon para atrair paz, amor ou dinheiro, e ainda quando desejamos “feliz ano-novo” a alguém com sinceridade no coração.
A primeira parte, que ficou no ano velho, foi a reflexão –sobre não só o que aconteceu de janeiro a dezembro, mas de 1975 a 2025. Completar 50 anos de vida foi uma alegria e um susto: em tom de brincadeira, ouvi o cardiologista dizer que já temos mais vida para trás do que para frente –a não ser que se alcance os três dígitos, eu acrescento agora.
Se pudesse retroceder no tempo, faria muita coisa igual, iniciativas que deram certo mais por acréscimo de misericórdia divina do que por competência minha. Falo daquelas coincidências que nem o acaso consegue explicar, e é melhor a gente nem perguntar. Com a experiência dos fatos acontecidos, acho que aprimoraria um pouco o método para que as coisas pudessem ser mais rápidas.
Mas também tomaria outros caminhos na vida. Me aplicaria mais nos estudos, empregaria menos tempo e energia em coisas que –só se descobre depois– não valem a pena. É tanta autossabotagem que a rota acaba alterada por culpa de se acreditar menos merecedor das benesses que a vida pode oferecer. Atire a primeira pedra quem realmente se tornou aquilo que sonhavam os sonhos de juventude.
Às vezes, nem é coragem que falta. São tantas as oportunidades que perdemos por deficiência de atenção que é até difícil de acreditar. A geração atual precisa ficar ainda mais atenta, porque estamos atravessando a era da instantaneidade, em que o digital virou sinônimo de superficial. Se me pedissem um conselho: não tirar sequer por um segundo o foco dos projetos pessoais parece o melhor a fazer.
Como informação é tudo, colocaria mais atenção até na leitura da lista de aniversariantes que os jornais de antigamente publicavam nas páginas sociais. Foi por esse lapso que perdi a oportunidade de oferecer uma flor à linda moça que fotografei no Clube Imperial e que fazia aniversário naquele dia. Mas Deus está nos detalhes, e o que está nos planos Dele chega até nós por caminhos surpreendentes.
Quanto à programação para o ano que começa, o segredo talvez esteja na distância entre a ponta da caneta e o suor da testa. Por mais que o misticismo das cores e o papel aceitem qualquer promessa, o destino é um mestre exigente que não se contenta apenas com intenções grafadas de próprio punho.
Planejar não é apenas listar desejos como quem preenche uma cartela de bingo esperando que o locutor cante as pedras certas. É desenhar um mapa sabendo que haverá tempestades e desvios. A organização pede o rigor de quem entende que cada um dos 365 dias é um compartimento estanque: se não cuidarmos da execução de cada etapa com a atenção de um revisor de imprensa, o ano vira um amontoado de amanhãs que nunca chegam.
Não podemos mais nos dar ao luxo de esperar que o universo conspire a nosso favor, como se o cosmos não tivesse mais o que fazer além de zelar pelas nossas agendas. A vida, essa senhora que já me soprou cinquenta velas, ensina que a tal “conspiração” é, na verdade, o encontro da preparação com a oportunidade.
É preciso estar vigilante na execução, corrigindo a rota enquanto o barco navega, sem delegar às estrelas a responsabilidade que é estritamente nossa. Afinal, para quem já percebeu que o tempo corre mais rápido do que a nossa capacidade de anotá-lo, cada detalhe executado vale mais do que mil promessas guardadas em segredo.
(Imagem gerada por IA)










