Clima de Natal
A quem reclama de que não há clima natalino, respondo que cada um vê a coisa de um jeito, como tudo na vida. A senhora com quem conversei outro dia e que está com o filho na cadeia, preso por um suposto motivo pequeno, diz que nem haverá Natal. Já um amigo que matriculou o caçula em uma renomada universidade certamente terá muito a festejar.
Dá para ser feliz em um país com um Congresso desses, que neste dezembro decidiu pôr fogo no parquinho? Até dá, mas é preciso esquecer que existem políticos que só pensam no próprio umbigo e, com boa dose de utopia, acreditar que os eleitores vão acordar em janeiro com um inusitado talento de votar certo, depois de adormecerem em 2025 com dor na consciência.
Quem também deve estar feliz são os donos de comércio. As perspectivas para este fim de ano são positivas, com projeções de um crescimento nas vendas, atingindo a casa dos 72 bilhões de reais, o que pode ser o melhor resultado em uma década, impulsionado pela recuperação do consumo. Mas há aqueles que, dependendo do setor e a cidade em que está instalado, enxergue até retração.
O clima natalino é um estado de espírito, que evidentemente ganha uma força graças aos enfeites e as luzes que se espalham pelas cidades. Haverá sempre uma referência, um Papai Noel, uma guirlanda que seja, a nos dizer que estamos prestes a comemorar a data mais comercial do ano. Já em novembro os supermercados encheram suas gôndolas de produtos da época.
Tem gente que não quer saber de congraçamento, que prefere ficar recolhido a ter de confraternizar com parentes. Pode ser trauma de infância. Eu mesmo poderia ser um desses, porque meus natais como foram como desejavam minhas idealizações de menino. Mas não guardei mágoas, e posso dizer que sou admirador da efeméride cristã.
Não venham com a velha história de que o comércio a desvirtuou. Se até Jesus ganhou presente dos Reis Magos, porque nós –ainda tão apegados à matéria– não nos entregaríamos à deliciosa sensação de dar e ganhar presentes? O Mestre expulsou os vendilhões do templo, não os vendedores CLT do Tempo do Advento.
Esses não estão profanando a data. Ganhar dinheiro honestamente ainda é um meio de subsistência interessante para uma sociedade cada dia mais permeada de lavadores de fortunas e sonegadores profissionais. Minhas preces é que algum dia todos tenham condição de comprar um presentinho e pelo menos possam fazer uma ceia digna sem depender de caridade alheia.
A verdade é que o Natal existe dentre de nós o ano inteiro. Cada vez que pensamos no próximo e movemos uma palha para aquecer a manjedoura de alguém, promovemos o Natal. Cada dia que acordamos e decidimos seguir uma estrela sem deixar as adversidades nos abater, estamos vivendo o Natal.
As decorações coloridas e luminosas que ganham as ruas em dezembro só o despertam mais intensamente. Para uns mais, para outros menos. A quem não veja clima de Natal, sugiro olhar com mais atenção para dentro de si. Há que se encontrar um motivo para celebrar. Nem que seja somente a dádiva de estar vivo ou descobrir uma fresta de esperança em meio aos apertos da vida nossa de cada dia.
Foto: Domínio Público/Procon










