Seja feliz
Há uma verdade insofismável, com espaço garantido nos mais elementares compêndios de conhecimento universal, conforme a qual gente feliz não enche a paciência de ninguém. Quem vive a atrapalhar a vida alheia são os aborrecidos vocacionais.
Ao contrário do que pensam os pessimistas, daqueles que costumam medir tudo com a própria régua, encontrar gente feliz é tarefa fácil. Basta dar um pulinho nos grupos que trabalham pelo bem-estar alheio. Como essas associações estão por toda parte, daí se pode depreender que é grande o contingente de felizes.
Alguém dirá que outros lugares também abrigam os que andam de mãos dadas com a alegria. Certamente. Mas os verdadeiramente felizes são aqueles que encontraram motivação para olhar além de seus umbigos, porque entendem que proporcionar felicidade a alguém é a forma mais eficaz de recebê-la de volta.
Se não vamos resolver de imediato as dores do mundo, ao menos podemos suavizar as realidades que machucam, ainda que por um instante –nem que seja apenas arrancando um sorriso de quem já quase se esqueceu de sorrir. Isso não é pouca coisa. Pelo contrário: às vezes, esse pequeno gesto é justamente o fio de esperança que impede alguém de desabar de vez.
Nossa cidade, aliás, é pródiga em instituições que se dedicam a esse trabalho silencioso e transformador, acolhendo o próximo quando ele tropeça em seus próprios perrengues. Há sempre uma mão estendida, um ombro disposto, uma porta aberta para quem já não sabe a que recorrer. São compostas por voluntários anônimos, cujos olhos já estão treinados a enxergar infortúnios ocultos.
A caridade material –aquela que se traduz em roupas, alimentos, remédios– é essencial, claro. Mas há também a caridade moral, mais discreta e delicada, que só existe quando não se humilha quem precisa de ajuda. Um gesto ofertado com respeito vale por dois; uma comiseração oferecida com soberba não vale por nenhum. A verdadeira caridade é um bálsamo que cura em silêncio, que consola sem cobrança, que se aproxima sem erguer pedestais. Ela ajuda a reconstruir quem a recebe e beneficia quem a pratica sem esperar nada em troca.
Conheço pessoas que, depois de enfrentarem seus próprios fantasmas, descobriram no serviço ao próximo um caminho inesperado de libertação. Eram almas que julgavam viver amarguras irreversíveis, engessadas em perdas ou desilusões. Mas, quando passaram a dedicar parte do seu tempo a aliviar a dor alheia, encontraram –quase sem perceber– lenitivos para as próprias dores. O bem que fizeram desatou nós antigos, iluminou cantos escuros, devolveu-lhes a sensação de pertencimento que acreditavam perdida.
Logo estaremos no Natal, essa época em que dezembro parece suspender a pressa do mundo para nos lembrar que todos somos, antes de tudo, humanos em busca de calor humano. Talvez seja por isso que o último mês do ano nos ofereça 31 motivos, cada qual com 24 horas inteiras, para exercitarmos a solidariedade como se fosse algo tão elementar em nossa rotina quanto escovar os dentes. Afinal, generosidade não deveria ser evento extraordinário: deveria ser hábito reflexo.
Voltemos à velha verdade lá do primeiro parágrafo: gente feliz não enche a paciência de ninguém –enche é o mundo de gentileza. E, porque sabe que a alegria se multiplica quando compartilhada, gente feliz quer, acima de tudo, que o outro também seja feliz.
Foto: Reprodução/Portal amenteemaravilhosa.com.br













