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A arte de pôr nome em rua

Dizem, com exagero e um pouco de inveja, que políticos servem apenas para dar nome de rua. Isso é uma injustiça, porque não é sempre que acontece de ter vias públicas para nomear. Ora, faz parte do serviço deles, não é crime algum apresentar um projeto com esse teor. Afinal, todas as casas precisam ter um endereço para que cheguem correspondências e encomendas variadas, inclusive comidas em um sábado à noite, quando quase ninguém tem vontade de encostar o umbigo no fogão.

Prédios públicos, praças, avenidas, teatros, rotatórias, vielas, pontes, viadutos… tudo tem denominação. E são os políticos –vereadores e o prefeito, no caso das cidades, que escolhem. E você não imagina como eles são assediados por cidadãos que querem eternizar o nome de um parente.

Há os que pedem para vários, na esperança ser atendidos. Podem esperar anos e anos, e mesmo assim ver frustrado o seu intento. Não é preciso ser um figurão para virar um epônimo (sim, o dicionário registra um termo para definir quem empresta o nome a uma coisa). É necessário sorte e senso de oportunidade para ganhar uma rua. Uma avenida, então, é uma Mega-Sena.

Sorte de quem pediu, que fique claro, porque o homenageado já terá partido desta para uma melhor. A lei proíbe nomear logradouros públicos com nome de gente viva. Isso é muito bom, porque evita privilégios. Em Ribeirão Preto, o Viaduto Presidente Sarney teve seu nome alterado em 2016 para Jandyra de Camargo Moquenco. O maranhense está com 95 anos e periga lançar ainda uns marimbondos de fogo.

É só dar uma volta pela cidade que você vai passar pelas praças Dr. Waldemar D’Ambrósio e Dr. Horácio Ramalho, que foram prefeitos, mas também por ruas que homenageiam gente simples, que muitas vezes passaram a vida anonimamente. Seus corpos não estão enterrados lá, mas essas vias acabam se tornando uma extensão de suas lápides.

Uma mania ruim, que há bom tempo caiu em desuso, é mudar nome das coisas. Imagine o transtorno se, de repente, mudasse o nome da Avenida Paulo Roberto Scandar. Os moradores teriam de alterar desde dados cadastrais em dezenas de lugares a escritura dos imóveis. A reclamação seria geral, sem falar que o novo dono do pedaço dificilmente seria de consenso.

Criou-se o hábito de só dar nome de gente a locais públicos. Foi por isso que sumiram as homenagens coletivas, como Rua dos Estudantes, Avenida dos Italianos, Travessa dos Pinheiros, Alameda dos Bem-Te-Vis. Em vez disso, procura-se agradar a família dos epônimos.

O bairro de nome mais bonito de Taquaritinga fica no Clube Náutico: Condomínio Pássaros e Flores – inspirado em rua com essa denominação no elegante e nobre Itaim Bibi, na capital paulista. Aliás, Itaim é “pedra pequena” e Bibi era o apelido de Leopoldo Couto de Magalhães Júnior, um dos primeiros proprietários da área.

Coisa que não se vê por aqui é rua batizada com o apelido da pessoa. Por exemplo, em uma rua Antônio Carlos Arruda de Paula Eduardo nem se ligaria o nome à pessoa, sem dizer que por extenso nem caberia na placa. Melhor seria rua Tarzan de Paula Eduardo, já que passando por ela todos lembrariam do vereador, esportista e radialista.

Outro erro comum é atribuir nomes de defuntos frescos a locais públicos. Nesse caso, a pressa é inimiga da perfeição. Deve-se deixar passar o tempo para que se encontre homenagem à altura de determinado cidadão. E dou um exemplo do ano de 2019: quando faleceu o professor e notável historiador Arnaldo Rui Pastore alguém procurou a viúva propondo nome de uma ruazinha qualquer. Dona Zoé retrucou: não, no mínimo uma escola.

Uma prática que também caiu de moda é lembrar datas comemorativas em vias públicas. A Rua 15 de Novembro teve sua denominação mudada para Ermínio Piva. A 24 de Outubro e a 7 de Setembro, que eu chamo de Rua do Grito, resistem. A 13 de Maio virou, por pouco tempo, Coronel José Pedroso. Na sessão da Câmara de 30 de dezembro de 1917, o vereador e vice-prefeito Thomaz Sebastião de Mendonça apresentou uma proposição, que foi aprovada, para mudar nomes de ruas e praças, sob o argumento de que os homenageados “promoveram o restabelecimento e a implantação da legalidade dos direitos políticos de nossos concidadãos”. A mudança não durou. Em pouco tempo, a homenagem à Lei Áurea foi restabelecida na rua que eu moro. E o Coronel Pedroso ficou a ver navios.

Quem fala mal de político que dá nome de rua está é com inveja, porque, se tivesse a oportunidade de tomar essa iniciativa, não abriria mão. Eu mesmo teria um punhado de nomes a sugerir.

(Imagem gerada por IA)

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