Crônica da semana por Nilton Morselli

A força realizadora

Quem conhece a Igreja Matriz de São Sebastião a admira por sua arquitetura e imponência. Mais do que isso, o que me chama a atenção é o que motivou uma pessoa ou um grupo a lançar-se na missão de construir um prédio tão grande e com tantos detalhes arquitetônicos e artísticos há quase 100 anos. Muito do que sabemos sobre ela está no livro do professor Milve Antonio Peria, que procura mostrar como foi o trabalho do começo ao fim. Mas o que teria levado os idealizadores a achar que o projeto era viável?
A esse pensamento alguns fatores remetem: 1) para começo de conversa, a cidade tinha cerca de 20 mil habitantes; 2) por essa razão, a arrecadação da Igreja, via dízimo, não devia ser lá essas coisas; 3) antigamente (a segunda década do século passado), a engenharia civil não contava com os recursos que tem hoje. Para ficar só na matemática da coisa, todos os cálculos eram feitos no papel.
Segundo as pesquisas do historiador Milve, a pedra fundamental foi lançada em 16 de julho de 1925, quando o vigário era o padre Antão Jorge, que tomara posse dois anos antes. “Foi ele que deu os primeiros passos rumo à construção do prédio da Matriz”, pontua o autor do livro. Mas nem tudo foram flores. Ao contrário, muitos percalços foram enfrentados pelo caminho.
O padre Clemente Baltus foi quem deu rapidez ao andamento da obra, quando aqui chegou por volta de 1940. O bravo holandês encontrou os serviços paralisados, no alicerce. Certamente, muitas campanhas foram feitas para que a igreja tomasse forma: colunas, paredes, construção das abóbadas, o madeiramento do telhado e a cobertura. Demorou um bocado de tempo, um pouco menos de dez anos.
Mas a construção total levou muito mais do que isso. Imagine, então, a dificuldade para administrar uma obra dessa envergadura, durante décadas. Imagine a pressão e a desconfiança geradas, fora as críticas dos que a chamavam de elefante branco e a consideravam um exagero, uma extravagância. E bota dinheiro nisso.
Esse prédio de grande valor arquitetônico só chegou a ser construído porque fora lançado em 1925, quatro anos antes da grande crise mundial de 1929 (a crise do café). E, diante de sua finalidade, certamente contou com as forças do plano espiritual. Quem não acredita nessa articulação divina pode continuar não acreditando – a amizade é a mesma.
Caso a nossa querida Matriz, hoje sede da primeira paróquia da cidade, não tivesse sido erguida lá atrás, jamais seria construída. Você percebeu que já não se fazem mais obras suntuosas? Isso vale para tudo, incluindo prédios públicos. Uma exceção foi o Templo de Salomão, inaugurado em 2014 pela Igreja Universal do Reino de Deus.
Do barroco ao moderno foi um salto para trás, pelo menos em questão de beleza. Desapareceram as colunas adornadas com capitéis. As construções empobreceram, seguem linhas retas e pré-moldadas, que lhes dão rapidez e economia. Casas e prédios se tornaram caixas, blocos envolvidos por cercas elétricas. Tudo muito funcional, mas sem aquela beleza de antes.
Voltando à Matriz consagrada ao mártir São Sebastião, sem se demorar na já tão falada e bela decoração interior, o que se analisa aqui é a coragem de se levar a cabo um projeto vultoso, que passou pela mão de vários sacerdotes. O padre Antão – apoiado pelos católicos de então – foi audacioso ao dar o pontapé inicial no templo que se tornaria cartão-postal. Nele estão impressas as marcas da genialidade do jovem imigrante italiano Ricardo De Lucca (1904-1998), escultor e arquiteto prático.
Tentando responder um pouco mais à pergunta do primeiro parágrafo, um último argumento. Se a fé move montanhas, decerto pode construir uma igreja. A fé aqui pode ser entendida como força realizadora e, evidentemente, como devoção a Deus. A conclusão coube ao Cônego Cavallini (1919-1998), que foi outro mestre na arte de fazer e acontecer – uma das poucas pessoas cujo corpo foi velado naquele lugar sagrado.
Tudo isso aí em cima certamente não vem à cabeça das noivas que, todos os sábados, rumam céleres, belas e esperançosas ao altar mais disputado de Taquaritinga. Mas é sempre bom lembrar como as coisas são feitas, que não existe geração espontânea e o quanto foi custoso construir o lugar mais fotografado da cidade.

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