Um papa brasileiro
Com a morte do papa Francisco, está na hora de o Vaticano eleger um brasileiro para o cargo de líder máximo da Igreja Católica, coisa que nunca aconteceu. Ora, o maior país católico de que se tem notícia certamente possui gente preparada para assumir a função.
Como bons brasileiros, tratamos com bom humor quando Jorge Mario Bergoglio foi anunciado, em 2013. Não dava para perder a piada, afinal de contas, era um argentino. As brincadeiras entre nossos hermanos e nós são antigas, datam do século 19, quando ambas as nações começaram a disputar a liderança na América do Sul.
Daí para o esporte, foi um pulinho. Pelé e Maradona rivalizavam – para eles, claro, porque para nós e o resto do mundo, Pelé foi muito maior. Mas hoje eles têm o Messi, são os atuais campeões mundiais, e nós… bem, nós estamos procurando um técnico que faça o milagre de organizar o nosso deficiente futebol, para não fazer feio de novo na Copa do Mundo.
Mas voltemos à religião. Francisco deixou saudades. Em tempos tão áridos de empatia, ele foi um papa que soube aproximar-se do povo como poucos. Humanizou o cargo, recusando-se a viver e ser sepultado em palácios e preferindo circular entre os fiéis. Exigiu que seu papamóvel fosse aberto e não tivesse blindagem. No Brasil, usou um Fiat Idea, porque sempre quis ficar perto de seu povo e com ele se identificar.
Bergoglio foi voz firme pelos pobres, pelos imigrantes, pelas minorias, pela justiça social. Fez como Jesus fazia, sublinhando que a Igreja deveria acolher quem a buscasse, fossem gays ou prostitutas. Não era só o Sumo Pontífice – era também um homem com gestos simples, capaz de transformar um olhar ou um abraço em evangelho puro.
Foi também um papa que olhou com carinho para o Brasil, país que visitou duas vezes, a primeira como cardeal e a segunda já como sucessor de Pedro. Aqui, com seu carisma, conquistou o coração de milhões de jovens. Também era popular entre as crianças. Livre de preconceitos, recebia a todos, inclusive o maior líder do Espiritismo na atualidade, o baiano Divaldo Pereira Franco.
Dos 137 cardeais com direito a voto no conclave, sete são brasileiros – todos nomeados por Francisco. Isso não é pouco. Entre eles, um nome começa a se destacar: Dom Sérgio da Rocha.
Aos 65 anos, natural de Dobrada, cidadezinha pacata aqui do interior paulista, vizinha de Taquaritinga, Dom Sérgio carrega em si a fé do povo simples e o preparo dos grandes pastores. Atualmente é arcebispo de São Salvador da Bahia e ocupa o simbólico título de Primaz do Brasil. Ou seja: se alguém no país já tem um pezinho no altar mais alto da Igreja, é ele.
Não está sozinho, claro. O Brasil é bem representado por nomes como os cardeais João Braz de Aviz, Paulo Cezar Costa, Odilo Pedro Scherer, Jaime Spengler, Leonardo Ulrich Steiner e Orani João Tempesta – todos com trajetória sólida no cristianismo católico. Mas Dom Sérgio tem algo de especial: a mistura da calma do interior com o pulso firme que a liderança exige.
Seria interessante ver, depois de um argentino no trono de Pedro, um brasileiro assumir esse lugar. Certamente nós – e os argentinos também – faríamos troça, mas isso até ajudaria a dar continuidade ao trabalho de Francisco, o bem-humorado, que elevou o cetro papal ao nível de serviço ao próximo e não de honraria. A eleição de um nativo seria reconhecer a força da Igreja Católica em solo brasileiro, a maior do mundo em número de fiéis.
Mas sabemos que dificilmente isso se tornará realidade. A tendência é que o conservadorismo fale mais alto, a ponto de voltar a conduzir um europeu ao Vaticano. A resposta poderá sair a partir de quarta-feira, 7 de maio, quando começa o conclave. Já estamos a postos para a grande decisão.
Ainda nutrimos uma esperança. Quem sabe os sinos de Roma não toquem em ritmo de samba?
Foto: Divulgação/CNBB










