O outono em nós
Creio que até os menos atentos já perceberam que o outono chegou. A propósito, acho chique quando as pessoas, em vez de datarem formalmente as coisas, informando dia, mês e ano, escrevem apenas o nome da estação e o ano. Primavera, verão, outono e inverno são metaforicamente associados a nossos estados de espírito, o que pode não ter nada a ver com o caso, mas essa forma de registrar a data remete a uma lembrança vaga do tempo em que transcorreu a ação, talvez querendo dizer alguma coisa sobre o clima, essa variável que tanto nos influencia.
Mas isso pode estar se perdendo, ressalvarão alguns, porque as estações não estão mais bem marcadas nestes tempos de “El Ninho” e “La Ninha”. Estaríamos, então, condenados a viver apenas um verão contínuo, acrescido de ondas de calor extremo? É cedo para acreditar nisso como verdade absoluta, porque ainda o clima nos surpreende – incluídos até os meteorologistas.
A novíssima estação chegou nesta quinta-feira, quando dedilho esta crônica, logo de manhãzinha. Posso dizer que pressenti a chegada dele, sem me dar conta do calendário, porque logo quando pus o nariz na rua, às 5h20, ele ainda estava a caminho, certamente dobrando a esquina. Literalmente, percebi que algo no ar estava diferente porque o outono irrompeu num frescor de quase voltar para pegar uma blusa.
Foi estranho, como uma presença silenciosa que se instala sem fazer alarde, mas ao mesmo tempo, inconfundível. Esse sopro, leve e agradável, parecia convidar o corpo a repensar suas camadas, a hesitar entre o frio e o calor, como quem quase decide pegar um agasalho e logo desiste. Não é ainda o possível frio da estação que está por vir, mas o toque sutil que nos prepara a recebê-lo, como um recado colado na porta da geladeira.
No fundo, é isso que o outono oferece: uma transição, uma espécie de limbo entre um ciclo que se encerra e outro que começa. E dessa vez, ele veio com uma precisão britânica, com direito a um céu matinal de fazer inveja ao vizinho inverno. Chegou chegando, no seu próprio tempo, com a graça dos dias mais curtos e as noites mais longas, e com essa luz dourada que se espalha pela cidade, tingindo os dias com um brilho suave, ainda nada melancólico.
Enquanto o verão se despede, com o calor que persiste nas nossas tardes, o outono lembra que as coisas acontecem quando têm de acontecer. Não há pressa em nada, tudo tem seu ritmo. Agora é hora de as folhas começarem a cair lentamente e de sentir o cheiro da brisa noturna que passa cantando baixinho entre as árvores, pedindo silêncio para o milagre da transformação.
Talvez a gente não consiga mais falar das estações com a mesma precisão de antes. As mudanças climáticas ameaçam quebrar as fronteiras que antes nos davam a certeza de que cada uma delas tinha seu lugar exato. Mas ainda assim, o outono chega, de forma poética e meio surpreendente, trazendo consigo a possibilidade de um tempo mais fluido, que não precisa de datas e números para se estabelecer em seus três meses de reinado.
Talvez seja a hora de nos permitirmos mais leveza ao lidar com o tempo. Quem sabe, ao invés de datas convencionais, possamos deixar que as estações se tornem as novas assinaturas de nossa existência. Até mesmo os documentos oficiais, com suas datas burocráticas e números precisos, poderiam seguir a regra. As cartas e as poesias de amor, por exemplo, não precisam de um dia exato para se fazerem eternas. Que nos livros as dedicatórias se limitem a um simples “verão de 2025”, como quem diz que o tempo não é rígido, mas uma ideia que nos abraça e nos envolve.
Outono de 2025
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