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Mulheres que acolhem

Fiquei sabendo que uma amiga, já vivida um punhado de anos a mais que eu, está cuidando do ex-marido, que anda adoentado da cabeça. Ele, que tantas aprontou na vida – incluindo traições –, pediu arrego. Não que ela esteja dando uma assistência, apenas: ofereceu seu teto para o homem, que agora virou um arremedo do que foi.
Sua história não é inédita para mim e, creio, para ninguém. Já fiquei sabendo de muitos desses reenlaces de terceiro turno. Quase sempre envolvem uma gentileza, uma generosidade feminina, porque as mulheres estão mais propensas a isso, pois naturalmente vivem mais e com mais saúde. Então, acabam sendo elas as cuidadoras – e raramente o inverso.
Ah, mulheres, que papel vocês desempenham no mundo! Pode ter havido o maior quebra pau na hora do divórcio, podem ter sido desonradas em seus sonhos mais sagrados. O tempo parece apagar mágoas no momento em que olham para o moribundo.
Sabem que o “ex” conheceu outros abraços, viveu tórridas aventuras, gastou suas energias e ofertou a outras os prazeres que lhe foram sonegados. Mas, a uma hora dessas, o coração fala mais alto, e justificam o gesto pelo amor aos filhos que tiveram ou não juntos.
Mesmo que fique subentendido um “eu te avisei” a cada xícara de chá levada na cama, o hóspede acaba recebendo tratamento vip. Elas chegam a deixar de lado os dias de tranquilidade da aposentadoria para se dedicarem ao príncipe que virou sapo, mesmo sem um fio de esperança de que anfíbios anuros voltem à realeza.
Não, não é justo chamá-las de Amélia a essa altura da vida. Elas foram à luta, muitas vezes criaram os filhos sozinhas enquanto o bonitão partiu atrás de um rabo-de-saia. Mas quando a vida começou a cobrar o preço, voltou com o rabo entre as pernas em busca do antigo ninho.
Um reconhecimento àquelas que, dignamente, fazem vista grossa às críticas que às vezes partem da própria família e estendem a mão àqueles com os quais um dia foram felizes, por mais efêmera que tenha sido a felicidade.
Há casamentos que acabam, mas a amizade permanece. Conheço casais que se separaram simplesmente porque o amor acabou. Ambos tentam novos caminhos, mas o futuro não passa de um depósito de expectativas. Uma junção de corpos pode não pressupor um encontro de almas, aliás, é o que mais se vê por aí.
Daí que o outono da vida chega e, com ele, os problemas de saúde. Eis que os laços que no passado se romperam ressurgem como caridade, que é a forma superlativa de amar. Dirão que fulana recolheu o ex-marido. Mas ela preferirá o verbo acolher.
Por mais que a união não tenha prosperado lá no passado, manter o respeito mútuo é fundamental. Com o perdão do clichê: ninguém sabe o dia de amanhã.

(Imagem gerada por IA)