DESTAQUEMais recentes

Crônica da semana por Nilton Morselli

Como fazer um obituário

Foi vasta a minha atividade na imprensa, em mais de duas décadas de redação. Quem trabalha no ramo, seja em grandes ou pequenas empresas, sabe que é preciso fazer de tudo. Nunca me esqueço do dia em que vi um repórter da Globo falando sobre a falta de recolhimento de lixo em São Paulo, uma semana depois de voltar de uma longa temporada em Londres fazendo cobertura de assuntos relevantes na Europa. Claro que a limpeza urbana é relevante, mas para um profissional fluente no idioma de Shakespeare é bem mais legal entrar ao vivo do parlamento inglês do que ao lado de um monte de sacos fedorentos.

É um bom exercício para a mente escrever sobre temas tão diferentes como política, esportes, cultura, roubos, crimes passionais, gastronomia, notas sociais, editoriais e – algumas vezes, confesso – até o horóscopo. Meus conhecimentos em astrologia me limitavam a adicionar alguma coisa que o senso comum pensa do signo de modo que a previsão semanal ficasse digna de credibilidade. Até o dia em que saíram dois sagitários, com textos que se contrariavam. “Em qual acreditar?”, perguntavam os leitores que telefonaram. Respondi que um era para os otimistas e o outro, para os pessimistas, antes de pedir desculpas pelo descuido.

Como tínhamos de jogar em todas as posições, não era raro cair às mãos a tarefa de produzir um obituário. Assim como outras seções, esse tipo de texto é tão antigo quanto necessário na imprensa. Jornais e revistas o publicam a título de informação e também para prestar uma homenagem ao morto, que não precisa ser ilustre para render textos interessantes, o que comprova que toda vida dá um livro. Um figurão é personagem fácil, porque sua trajetória quase sempre é pública, e basta um pouco de pesquisa para acrescentar algo que poucas pessoas sabem.

O leitor já deve desconfiar que, nesses casos, a rapidez do jornalista deriva de uma esperteza. Textos sobre gente famosa e, digamos, com uns anos de experiência na estrada da vida repousam em arquivos de computador à espera do derradeiro fechar de olhos – geralmente basta colocar a data fatídica. Já lancei mão, inúmeras vezes, dessa estratégia para furar a concorrência, tanto na era da imprensa analógica quanto na digital. Mas não pense que qualquer resumo biográfico é digno de ser chamado de obituário. Para ser tratado como tal, existem regras. A primeira delas: tem de ser pelo menos um pouco laudatório.

Ann Wroe, editora de obituário na revista britânica “The Economist”, dá uma dica: “Meu ponto, muitas vezes, é que não existe nenhum ser humano totalmente mau ou bom. As pessoas são complexas, e eu espero que, ao ler os obituários, as pessoas sintam simpatia até por pessoas difíceis”, diz a jornalista, que escreve para essa seção da revista desde 2003.

Os textos mais prazerosos para escrever – e também para se ler – são sobre as pessoas simples, os desconhecidos pela maioria. Nessa hora, conversando com gente da família, encontramos lances incríveis da personalidade, aptidões e hábitos que lhe marcaram a passagem por esse vale de lágrimas.

Por isso, leio diariamente a coluna de obituário da “Folha”. Lá, 99% dos textos são de ilustres desconhecidos. Tenho a satisfação de dizer que emplaquei várias histórias de vida no maior jornal do país, como a do músico Ziquito, Leo do Horto, Edevídio Bussadore, dona Emília Fucci, dona Tudinha, entre outros. A missão do redator às vezes é dura. Chega a molhar o teclado.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *