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Crônica da semana por Nilton Morselli

Sobre máquinas e pilotos

A aviação se serve de acidentes de percurso para corrigir falhas. Alguns deles se transformam em tragédias e outros acabam bem, como o episódio do Boeing 737 Max-9, que em janeiro deste ano perdeu uma porta a 4,8 mil metros de altura, com 177 pessoas a bordo. O piloto teve de fazer um pouso de emergência no Aeroporto de Portland, nos EUA. A fabricante da caranga voadora perdeu US$ 12,1 bilhões na Bolsa de Valores de Nova York em um único dia, tal a repercussão do caso.

Quando coisas do tipo ocorrem, todas as aeronaves do modelo têm de ficar em solo até que alguém descubra o que causou o problema e se ele não se repetirá em série. A indústria em geral segue o mesmo critério para aprimorar seus produtos. É por isso que volta e meia uma montadora anuncia recall de um automóvel, substituindo uma peça que pode causar um acidente.

Na política também poderia ser assim. Se o candidato vitorioso apresentasse uma falha, grande ou pequena, durante o mandato, seria colocado de lado até que se corrigisse –ou fosse corrigido. Bem, esse mecanismo já existe, mas é bem difícil de ser colocado em prática, porque depende de questões mais complexas do que apertar alguns parafusos ou trocar uma bobina. Envolve acordos e, se esses falharem, recursos judiciais.

O ser humano em geral não admite que errou, principalmente quando tem certeza de que andou pisando na bola. Terceirizar a culpa é a mais desonrada das saídas, mas isso é muito recorrente, sobretudo na vida pública. E olha que o comportamento errático, para dizer o mínimo, de um governante pode fazer mais vítimas que a queda de mil aviões.

As máquinas são produzidas por outras máquinas seguindo padrões bem definidos em projetos, que podem conter erros humanos. Já a linha de montagem do homem é cheia de variáveis, como educação, história de vida e caráter ou a absoluta falta dele. A política, assim como as empresas, deveria priorizar o consumidor final. Em ambos os casos, quando isso não acontece, os desastres são iminentes.

O futuro usuário de um carro tem o poder de escolher a categoria, o modelo, a tecnologia, a potência, o desempenho, a cor, a eficiência, a fonte de alimentação e o nível de consumo. Mesmo assim pode quebrar a cara. Se não ficar satisfeito, cabe a ele desfazer-se do bem e procurar outro que melhor atenda às expectativas.

Ninguém está isento de erros –tanto quem escolhe quanto quem oferece o produto ou serviço. A diferença está na pronta disposição de corrigi-lo, por ética ou força legal, o que revela o nível de honestidade dessa relação. Nesse quesito, de oferecer os ajustes necessários pelo menos durante o período de garantia, a iniciativa privada dá de goleada.

O Estado Democrático de Direito tem alguns mecanismos destinados a corrigir rotas e punir pelas barbeiragens, nos quais demonstramos nossa satisfação ou insatisfação com o piloto. O mais eficiente que se conhece é a eleição, porque os demais podem não surtir o efeito desejado ou sequer ser utilizados.

Quem “comprou” a ideia do candidato, aprovando-a ou não depois, geralmente é obrigado a aturá-lo até o fim do tempo regulamentar. A cassação, via Legislativo ou Judiciário, pode ser um processo lento. O Código de Defesa do Consumidor parece mais eficaz na cobrança de resultados. Às vezes a sensação no Brasil é de que estamos a bordo de um avião em estol e o piloto é o único que está tranquilo.

Foto: Portal Grebler

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