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CATÁSTROFE ALÉM DA IMAGINAÇÃO

Por Luís José Bassoli

Depois de Gaza, a ameaça de uma guerra generalizada
Secretário-Geral do Hezbollah, Hassan Nasrallah. Foto: HO/AL-MANAR TV/AFP

Em nove meses de ataques, o exército de Israel devastou a Faixa de Gaza.
Destruiu 300 mil casas, 250 mesquitas, todos os hospitais, centros de saúde, escolas e universidades e 100% do sistema de energia, água e esgoto.
Mais de 38 mil pessoas foram mortas (16 mil crianças); 8 mil desaparecidas, 85 mil feridas, 18 mil crianças ficaram órfãs.
Cerca de 400 médicos/enfermeiros e 150 jornalistas assassinados.
95% da população foi deslocada e metade está desabrigada; 350 mil doentes sem medicamento e 60 mil grávidas sem assistência.

 

Derrota Militar

As ações israelitas causaram um genocídio, uma tragédia humanitária; porém, do ponto de vista militar, Israel está perdendo a guerra.
Mesmo despejando 80 mil toneladas de bombas, a meta não foi alcançada: o Hamas não foi “aniquilado” e os reféns não foram resgatados.
O porta-voz das Forças de Israel, almirante Daniel Hagari, admitiu que o objetivo da guerra é inatingível: “O Hamas é uma ideologia, não podemos eliminar uma ideologia”, disse.
Internacionalmente, Israel está isolado – até os EUA dão sinais de “preocupação”.
Internamente, o primeiro-ministro Benjamin Netanyauh está enfraquecido pelas manifestações e divisões entre militares e políticos.

Escalada da guerra

Para se manter no poder, Netanyauh sinaliza uma “operação muito intensa” no Líbano.
Forças israelenses e do grupo Hezbollah trocam ataques na fronteira há meses; unidades desarmadas da ONU estão no sul do Líbano monitorando a situação.
Se decidir por uma “guerra total”, Israel poderá se ver diante da pior ameaça desde a criação do Estado Judeu.

 

Cenário sombrio

A eventual guerra total no Líbano poderá “arrastar” outros países e organizações para o conflito.
EUA e Reino Unido sairiam em defesa de Israel; enquanto Hezbollah, Irã e o Eixo da Resistência (ver quadro) em defesa do Líbano.
O Secretário-Geral da ONU, Antonio Guterres, declarou que “uma precipitação [de Israel] poderá desencadear uma catástrofe que vai muito além da fronteira e além da imaginação” – e clamou à comunidade global para impedir que o “Líbano se torne outra Gaza”.

 

Fator Hezbollah

Acontece que o Líbano não é Gaza e o Hezbollah não é o Hamas.
O território libanês é trinta vezes maior que Gaza; o Líbano tem 9 milhões de habitantes, Gaza tem cerca de 2,1 milhões.
O Hamas é um grupo de resistência, com cerca de 20 mil combatentes, arsenal restrito de lançadores de granadas, minas terrestres e rudimentares foguetes, portáteis, antitanque, de fabricação local, derivados do modelo RPG-7 de origem russa.
Já o Hezbollah é um grupo bem estruturado, responsável pela “única derrota” do exército de Israel da história, ao forçar a retirada dos 10 mil soldados do território libanês, em 2006.
Hoje, está ainda mais fortalecido, estima-se que possa mobilizar cerca de 100 mil soldados, possui um impressionante arsenal que pode passar de 250 mil foguetes/mísseis, incluindo de alta precisão, de origem iraniana, russa e chinesa, e detém tecnologia para fabricar seus próprios drones de ataque.
Neste ano, pela primeira vez, o grupo utilizou mísseis de defesa antiaérea contra aviões e drones israelenses.

 

Forças armadas de Israel

As Forças de Defesa de Israel (IDF, na sigla em inglês) estão entre as mais modernas do planeta, com destaque à Força Aérea, que conta com 240 caças/interceptores, incluindo os sofisticados F-35, de fabricação americana.

Mito da inviolabilidade

Israel confia em seu sistema de defesa aérea, o Domo de Ferro, acionado inúmeras vezes para impedir ataques.
Em abril passado, o mito da inviolabilidade aérea foi abalado pelo ataque do Irã, que atingiu a Base Aérea de Nevatim, a principal do país, onde ficam os poderosos F-35.
Recentemente, o Hezbollah divulgou imagens aéreas, captadas por drones espiões, de bairros residenciais, portos, instalações de energia e militares – inclusive bases do Domo de Ferro – em Haifa, a segunda maior cidade israelense, o que expõe a vulnerabilidade do sistema de defesa do país.
Analistas dos EUA dizem que o grupo pode sobrecarregar o sistema, com ataque maciço de drones e mísseis.

 

Questão Nuclear

Israel possui centenas de bombas atômicas táticas, de menor potencial, específicas para destruir, completamente, instalações militares, colunas de tanques, navios, vilas ou pequenas cidades.
Na Guerra de Yon Kippur (1973), Egito e Síria invadiram Israel de surpresa; a então primeira-ministra, Golda Mayer, declarou que se defenderia com “todas as armas disponíveis”, e teria dado ordem ao general Moshe Dayan para armar aviões com bombas táticas e os colocar no ar – os inimigos recuaram.
Tal estratégia de dissuassão, talvez, não possa ser utilizada novamente, diante da possibilidade de o Irã já ter sua bomba nuclear.

 

Futuro de Gaza e governo Biden

A administração Biden pressiona Netanyahu para dar condições de surgir uma nova liderança palestina em Gaza, para ter com quem negociar e encerrar os combates com o Hezbollah.
O primeiro-ministro israelita não apresentou nenhum plano para o futuro de Gaza; sua base parlamentar, de extrema-direita, o pressiona por uma reocupação do território, com reassentamento de colonos sionistas.


Aviso final

Historicamente, o Hezbollah mantém suas tropas no território libanês e só ataca alvos militares de Israel.
O Secretário-Geral do Hezbollah, Hassan Nasrallah, é reconhecido por ser um líder que cumpre com sua palavra.
Caso Israel inicie a guerra total, prometeu “lutar sem regras nem limites”, que incluiria o Chipre, país insular do Mar Mediterrâneo, que fica a 250 km da costa libanesa.
Membro da União Europeia, o Chipre poderia colaborar com Israel.
“Abrir suas bases para israelenses atacarem o Líbano significaria que o governo cipriota é parte da guerra, e será tratado como inimigo”, declarou Hassan Nasrallah.
O Secretário-Geral do Hezbollah concluiu: “Não haverá lugar seguro em Israel”.

 

Eixo da resistência
Termo que marca os grupos islâmicos, quase todos apoiados pelo Irã, que se opõem às ações israelo-americanas na Palestina. Além de Hezbollah e Hamas, vale destacar os Houthis (do Iêmen), com considerável arsenal de drones e mísseis, de origem russa e norte-coreana; o Kataib Hezbollah (Iraque); as Forças de Mobilização Popular (ajuntamento de 40 grupos iraquianos); a milícia cristã Kataib Rouh, conhecida como “Brigada do Espírito de Deus Jesus Filho de Maria” (Iraque/Síria); o exército da Síria, e dezenas de subgrupos.

 

(Com: ONUNews; CNNBrasil; R7; BBCBrasil; AP; AlJazeera; Médicos Sem Fronteiras; Salem Nasser e agências).

 

Luís José Bassoli é advogado, professor de Geopolítica, ex-professor de Comércio Exterior da FATEC, pós-graduado em Didática para o Ensino Superior e colaborador do Tribuna.

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