Santa-casa banner
Shadow

Nomes na fila

A morte de Washington Maguetas (5 de julho de 1942-10 de outubro de 2026) abre uma discussão: como a cidade em que nasceu o consagrado artista plástico irá homenagear a sua memória. Nomear uma rua seria suficiente para representar tudo o que o pintor impressionista simboliza? É uma boa pergunta, porque uma via pública não é pouca coisa.

Mas daí me lembro da reação da dona Zoé, viúva do professor Arnaldo Ruy Pastore (5 de maio de 1929-15 de fevereiro de 2019), diante da oferta de uma rua para reverenciar o historiador no Jardim Straccini. “De forma alguma. No mínimo, uma escola!” Demonstrando indignação, ela me telefonou logo em seguida para relatar a conversa com uma pessoa do governo municipal da época.

Se for assim, Maguetas deveria nomear alguma coisa ligada às artes. Mas veja só o dilema enfrentando pelo poder público quando morrem figuras que foram relevantes em algum setor da sociedade. Nem sempre há locais públicos, à espera de uma placa de inauguração, que digam respeito às atividades que desempenharam na Terra.

Já a oferta de ruas é maior, pois sempre se lançam empreendimentos imobiliários. Surge aí outro problema: há famílias de futuros homenageados que rejeitam bairros nos arrabaldes da cidade e outras que têm a audácia de sugerir a mudança da nomenclatura de ruas tradicionais que reverenciam datas: 24 de Outubro, 13 de Maio, 7 de Setembro…

É um crime legislativo mudar nomes de seja lá o que for. Além de causar transtornos e implicações financeiras aos moradores, que precisam alterar escrituras e outros documentos empresariais, isso depõe contra a história e a ideia do legislador de eternizar a importância daquela efeméride.

Taquaritinga deve à memória de alguns de seus cidadãos honorários. Não há ainda um lugar que homenageie o espanhol José Maria Nuevo, que cedeu a área para a construção da Santa Casa e ainda doou tijolos e um leito. (Seu filho, o poeta e jornalista Narciso da Rocha Nuevo, é lembrado na praça construída em frente ao Cemitério Cônego Lourenço Cavallini.)

Há pelo menos outros quatro representantes da cultura cujos nomes deveriam figurar na malha urbana. Um deles é a jaboticabalense Emília Assumpção Fucci (22 de maio de 1927-2 de julho e 2017), professora, mestre das artes plásticas e mulher de um presidente da Câmara, o dentista José Fucci.

Da mesma forma, a professora de artes Cynira Lagoa Scrivante, que deixou este plano no dia 5 de maio de 2017, aos 90 anos. Ela foi a criadora da Bandeira de Taquaritinga, atendendo a um pedido do prefeito Ademar Carvalho Gomes. Seu corpo foi velado em Rio Preto, onde morava, e sepultado em Taquaritinga.

Tampouco há uma Rua Mário Campiotti (6 de maio de 1911-17 de janeiro de 2003). Marceneiro e empreendedor industrial, foi o mais hábil entalhador que já viveu por aqui, além de ser um dos 30 membros do Partidão –entre as suas bandeiras estava o combate ao fascismo. Os marceneiros, italianos ou descendentes, eram todos comunistas ou socialistas. Campiotti deixou uma obra vasta, que está espalhada em móveis e decorações que embelezam centenas de lares de Taquaritinga e de muitas outras cidades.

Em Botucatu, onde viveu parte de sua vida, o juiz de Direito Antônio Gabriel Marão (1911-1995) foi um homem de tertúlias. Fundou a Academia Botucatuense de Letras, vereador por 13 anos consecutivos e presidente do Distrito do Lions por quatro vezes. Lá, ele nomeia um centro cultural concebido na década de 1960 pelo arquiteto Nadir Curi Mezerani. Antes de fazer a vida longe de Taquaritinga, ainda nos primeiros anos de juventude, Marão foi um agitador cultural.

Já passou da hora de nossa cidade homenagear Aparecido Rodrigues, o Cido Guarda-Chuva (8 de setembro de 1956-25 de janeiro de 2011). Nascido em Fernando Prestes, chegou criança a Taquaritinga. O menino pobre e dócil, apesar de ser portador de pequeno distúrbio mental, logo conquistou o coração de todos. Era apaixonado por Carnaval e pelo bloco Batata Doce, cujos integrantes lhe deram um enterro digno e emocionante: cantando, todos acompanharam o caixão, da saída do velório até a sepultura.

Nem os mais velhos chamam mais o trevo da Fatec de Trevo da Eva. Então, nada mais justo que nomear uma via pública como Eva Maria Francisca do Rosário, a Eva do Trevo, que morreu do coração, aos 80 anos, no dia 23 de janeiro de 1955. Seus benzimentos e os remédios que preparava eram tão famosos que a região onde ficava sua chácara era chamada pelo povo de Vila Nhá Eva. Cheguei a entrevistar sua filha, já bem idosa, que morava no Jardim Santa Cruz.

É claro que essa lista falha quando deixa de citar outros expoentes, mas os legisladores deveriam levá-la em consideração na hora de nomear logradouros públicos. Acrescento um aqui que, a despeito de ter sido meu amigo de todas as horas, foi um militante dos bastidores políticos muito respeitado por todas as correntes, assessor que era do deputado e depois conselheiro de Contas Dimas Ramalho. Ainda andarei pela Rua Cal Galatti – Luís Carlos Galatti (1.º de janeiro de 1961-27 de janeiro de 2022). Todos eles merecem ser tirados da fila.

Rally Auto Posto